Private equity cresce, mas modelos de remuneração com ações ainda não convencem em Portugal

O mercado de private equity está em crescimento em Portugal, acompanhando a tendência internacional, mas continua a enfrentar limitações quando se trata dos modelos de remuneração oferecidos aos profissionais.

Revista de Imprensa
Dezembro 29, 2025
10:38

O mercado de private equity está em crescimento em Portugal, acompanhando a tendência internacional, mas continua a enfrentar limitações quando se trata dos modelos de remuneração oferecidos aos profissionais. Apesar de o capital privado se afirmar como um polo de atração de talento, sobretudo pela ligação entre desempenho e incentivos, a aceitação de bónus assentes em participação acionista permanece reduzida, refletindo, segundo especialistas, uma menor maturidade do mercado nacional.

Em declarações ao Negócios, Stefano Salvatore, managing partner da Heidrick & Struggles em Portugal, sublinha que o capital privado atrai profissionais que valorizam não apenas a remuneração, mas também a clareza na governação, a capacidade de influenciar decisões estratégicas e uma relação direta entre desempenho individual e criação de valor. Ainda assim, nota que, em matéria remuneratória, Portugal revela especificidades culturais que condicionam a adoção de modelos mais sofisticados.

O relatório Europe Private Capital Compensation Survey, elaborado pela Heidrick & Struggles junto de 302 profissionais do setor, indica que a atividade recuperou na segunda metade do ano, beneficiando da estabilização dos mercados financeiros e da aproximação das expectativas de avaliação. Apesar disso, os investidores mantiveram uma postura seletiva, privilegiando empresas com lucros sustentáveis, capacidade de fixação de preços e estratégias claras de criação de valor, em detrimento de ativos mais cíclicos ou intensivos em capital.

Num contexto marcado pelo peso significativo de empresas familiares e de pequena e média dimensão, Portugal tem registado maior atividade de private equity, explica Salvatore. Para atrair talento capaz de profissionalizar e acelerar o crescimento das empresas adquiridas, os fundos têm apostado em modelos de governação mais transparentes e meritocráticos, nos quais a responsabilidade individual e o contributo para os resultados são mais facilmente mensuráveis.

Ainda assim, muitos profissionais continuam reticentes quanto a modelos de remuneração baseados em equity upside. “A aceitação de modelos assentes na participação nas mais-valias futuras ainda enfrenta barreiras culturais em Portugal”, admite o responsável, acrescentando que, ao contrário de mercados mais sofisticados, o candidato português tende a privilegiar a segurança de estruturas salariais tradicionais. Conceitos como o co-investment, frequentemente exigido pelos fundos, permanecem pouco enraizados culturalmente.

Esta resistência reflete uma perceção distinta do risco quando comparada com outros mercados internacionais, onde o alinhamento entre sucesso individual e sucesso da saída do investidor é amplamente aceite. Para Salvatore, a transição para este modelo em Portugal está em curso e exige uma mudança gradual de mentalidade. Paralelamente, o setor tem procurado perfis com competências operacionais, setoriais e funcionais, essenciais para apoiar o crescimento, a internacionalização e a eficiência das empresas participadas, reforçando o papel do capital privado na transformação do tecido empresarial nacional.

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