Pressão para novo impeachment de Trump cresce após captura de Nicolás Maduro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta novos apelos a um processo de impeachment por parte de democratas no Congresso, na sequência da ofensiva militar lançada contra a Venezuela e da captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, durante o fim de semana.

Pedro Gonçalves
Janeiro 5, 2026
19:03

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta novos apelos a um processo de impeachment por parte de democratas no Congresso, na sequência da ofensiva militar lançada contra a Venezuela e da captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, durante o fim de semana. A decisão da Casa Branca desencadeou uma forte divisão política em Washington, com críticas centradas na legalidade da operação e no facto de o Congresso não ter autorizado previamente o uso da força militar.

Donald Trump anunciou no sábado que os Estados Unidos tinham capturado Nicolás Maduro e a sua mulher, Cilla Flores, após um “ataque em larga escala” contra Caracas. Segundo a administração norte-americana, o casal enfrenta acusações de narcoterrorismo, num processo em que Washington responsabiliza o regime venezuelano pelo fluxo de drogas mortais para território norte-americano.

Maduro e a mulher foram formalmente acusados no Tribunal do Distrito Sul de Nova Iorque. O líder venezuelano já tinha sido indiciado nesse mesmo distrito, em março de 2020, por conspiração relacionada com narcoterrorismo. Em agosto de 2025, as autoridades norte-americanas duplicaram para 50 milhões de dólares a recompensa por informações que conduzissem à sua detenção. Nicolás Maduro sempre negou qualquer envolvimento em crimes.

As reacções no Congresso foram mistas. Muitos republicanos saudaram a ação militar e cerraram fileiras em torno do presidente. No entanto, membros de ambos os partidos levantaram dúvidas quanto à legalidade dos ataques, sublinhando que não houve autorização prévia do Congresso, como exige a Constituição norte-americana.

Vários democratas consideram que a operação atinge o patamar de infração passível de impeachment, uma questão jurídica que deverá marcar o debate político nas próximas semanas e influenciar as eleições intercalares previstas para novembro.

A deputada democrata Delia Ramirez, do Illinois, foi uma das vozes mais críticas, classificando a decisão como “violações ilegais e perigosas do direito internacional e da lei dos Estados Unidos que colocam todos em risco”. Na mesma declaração, acusou Trump e a sua administração de agirem como se fossem intocáveis, defendendo que existem mecanismos para proteger os norte-americanos de “déspotas, belicistas e autoritários”.

Ramirez apelou ainda à aprovação da resolução sobre poderes de guerra apresentada pela congressista Ilhan Omar, sublinhando que o Congresso deve reafirmar as suas competências e que Trump “tem de ser alvo de impeachment”.

Crescem vozes democratas a pedir destituição
Também o deputado democrata Dan Goldman, de Nova Iorque, afirmou considerar a ação militar “um delito passível de impeachment”. Já Maxine Waters, deputada da Califórnia, disse à Axios que muitos democratas têm questionado se um novo processo é politicamente viável no atual contexto, mas admitiu estar a “reconsiderar essa posição”.

A pressão estende-se a candidatos que concorrem a lugares na Câmara dos Representantes. O senador estadual Scott Weiner, democrata da Califórnia e candidato à sucessão da antiga presidente da Câmara Nancy Pelosi, defendeu que Trump deve ser “imediatamente alvo de impeachment”, sublinhando que o presidente “não tem qualquer autoridade legal para invadir a Venezuela sem autorização do Congresso”, classificando a operação como mais um “ato ilegal” de um presidente que descreveu como “valentão”.

Kat Abughazaleh, candidata a um assento no Congresso pelo Illinois, afirmou num vídeo que Trump “tem de ser alvo de impeachment, condenado e afastado do cargo o mais rapidamente possível”.

O professor de Direito Brian Kalt, da Universidade Estadual de Michigan, explicou à Newsweek que existe uma base legal para um processo de impeachment, uma vez que “qualquer violação das restrições constitucionais impostas à presidência pode ser interpretada como passível de impeachment”. Ainda assim, considerou improvável que o processo avance com sucesso, dado que os republicanos detêm a maioria na Câmara dos Representantes.

Segundo Kalt, seria necessário um apoio significativo de republicanos para que o processo avançasse, algo que considera improvável, acrescentando que existe uma “probabilidade zero” de o Senado vir a condenar o presidente. O académico sublinhou ainda que a polarização política tornou “mais fácil iniciar processos de impeachment, mas mais difícil obter condenações”, apontando para um aumento de tentativas “fúteis” de destituição.

O politólogo Robert Y. Shapiro, da Universidade de Columbia, afirmou à Newsweek que um impeachment só teria viabilidade se existisse apoio republicano suficiente para uma maioria expressiva na Câmara e uma possibilidade real de condenação no Senado, o que exigiria um número significativo de senadores republicanos a votar contra Trump. Para já, é demasiado cedo para avaliar o impacto político total da operação militar e da captura de Maduro, sendo este um fator determinante para o desfecho das eleições intercalares.

Apesar de Trump ter sido alvo de múltiplas tentativas de impeachment durante o seu primeiro mandato — tendo sido efetivamente alvo de dois processos aprovados pela Câmara, ambos chumbados no Senado — os democratas têm mostrado maior contenção durante o segundo mandato. Resta saber se o número de vozes a exigir a sua destituição continuará a aumentar.

Shapiro destacou ainda que um processo de impeachment permitiria ao Congresso tentar reafirmar-se como um poder equivalente, mas alertou que o risco é expor novamente a fragilidade dos democratas e permitir a Trump apresentar-se como vítima para mobilizar apoios.

O comentador político Kyle Kulinski escreveu na rede social X que a ausência de uma reação imediata, seja através do impeachment ou da 25.ª Emenda, é “assustadora”, alertando que Trump poderá interpretar a falta de consequências como autorização para futuras intervenções ilegais.

Do lado democrata, o senador Chris Van Hollen, de Maryland, afirmou à CBS News que toda a operação tem como objetivo “livrar-se de Maduro, apoderar-se do petróleo da Venezuela para empresas norte-americanas e para os aliados bilionários de Trump”, sublinhando que o presidente falou extensivamente sobre petróleo após a operação.

Em sentido oposto, o deputado republicano Mike Lawler, de Nova Iorque, elogiou a decisão presidencial, afirmando numa publicação na rede X que a captura de Maduro, a quem classificou como narcoterrorista, “mudou o curso da história” e tornou os Estados Unidos mais seguros, defendendo que Trump fez mais num ano para travar o tráfico de droga do que administrações anteriores.

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