“Precisam de mais memória do que um foguetão”: a nova ‘sombra’ que ameaça o setor automóvel e que pode fazer disparar os preços dos carros

Data centers dedicados à IA deverão absorver mais de 70% de todos os chips de memória produzidos até 2026, provocando uma subida acentuada dos preços e abrindo caminho a uma nova crise que ameaça diretamente a indústria automóvel

Automonitor
Fevereiro 2, 2026
11:39

A explosão da inteligência artificial já estava a transformar o mercado global de semicondutores, mas começa agora a afetar um componente que durante anos foi considerado comum: a memória RAM. De acordo com várias análises citadas pelo ‘L’Automobile Magazine’, os data centers dedicados à IA deverão absorver mais de 70% de todos os chips de memória produzidos até 2026, provocando uma subida acentuada dos preços e abrindo caminho a uma nova crise que ameaça diretamente a indústria automóvel.

Depois da escassez de semicondutores durante a pandemia, o setor automóvel enfrenta novamente um risco estrutural. Desta vez, não se trata de microcontroladores, mas da memória RAM, essencial para o funcionamento de ecrãs, computadores de bordo e sistemas avançados de assistência à condução. A escalada dos preços é tal que poderá refletir-se no valor final dos automóveis já ao longo deste ano, segundo o ‘L’Automobile Magazine’.

Quando a IA absorve a memória mundial

Em menos de dois anos, a ascensão da IA generativa alterou profundamente o equilíbrio da indústria dos semicondutores. Gigantes da computação em nuvem, nos Estados Unidos, na China ou na Europa, estão a investir dezenas de milhares de milhões de euros em infraestruturas especializadas, frequentemente descritas como “fábricas de IA”. Estes centros dependem não apenas de GPUs e aceleradores, mas sobretudo de grandes volumes de memória.

A DRAM para servidores e a memória de alta largura de banda, conhecida como HBM, tornaram-se recursos críticos para treinar e executar modelos cada vez mais complexos. Analistas do UBS classificam esta dinâmica como um “risco fundamental” para todos os setores dependentes de RAM, com destaque para a indústria automóvel. As estimativas apontam para que, até 2026, mais de 70% da produção global de memória de alto desempenho seja canalizada para data centers, tradicionais ou dedicados à IA.

Esta reorientação está a levar os fabricantes a privilegiar os segmentos mais rentáveis, como a HBM e a DRAM para servidores, em detrimento de mercados tradicionais, incluindo PCs, smartphones e componentes automóveis. O resultado é uma pressão estrutural sobre a oferta. Segundo dados citados pelo ‘L’Automobile Magazine’, alguns produtos de DRAM já duplicaram de preço e este cenário poderá prolongar-se até ao final da década. A sul-coreana SK Hynix antecipa mesmo uma escassez contínua até 2027, apesar do anúncio de uma nova fábrica avaliada em cerca de 12 mil milhões de euros, cuja produção só deverá arrancar em 2028.

Os automóveis consomem cada vez mais memória

Embora possa parecer menos exposto do que o setor tecnológico, o mercado automóvel tornou-se um dos maiores consumidores de memória. A Micron sintetizou esta transformação no final de 2023 com uma frase que se tornou emblemática: um automóvel moderno precisa hoje de mais memória do que um foguete espacial. Em média, um veículo já integrava cerca de 90 gigabytes de memória em 2023, número que deverá aproximar-se dos 280 gigabytes em 2026. Em modelos de topo, a capacidade poderá atingir valores próximos dos dois terabytes até 2030.

O automóvel moderno é, cada vez mais, um computador sobre rodas, com dezenas de unidades de controlo eletrónico, entre 50 e 150 microcontroladores, cada um com a sua própria memória RAM para gerir dados temporários. O sistema de infoentretenimento ilustra bem esta evolução. Onde antes bastavam um ou dois gigabytes, as plataformas atuais recorrem a quatro ou oito gigabytes de LPDDR4, podendo ir além disso. Fabricantes chineses como a BYD ou a NIO já integram 16 gigabytes de LPDDR5, enquanto a Ford utiliza a mesma capacidade no sistema SYNC 5 baseado em tecnologia Qualcomm.

ADAS e condução autónoma aceleram a procura

O maior salto no consumo de memória vem, no entanto, dos sistemas avançados de assistência ao condutor. Câmaras de alta definição, radares, lidars e sensores ultrassónicos geram fluxos contínuos de dados que têm de ser processados em tempo real. Para responder a estas exigências, os computadores dos sistemas ADAS recorrem a memória de alta largura de banda, semelhante à utilizada em servidores.

A Samsung já desenvolveu módulos específicos para este segmento e a Tesla equipa o Autopilot Hardware 4 com 16 gigabytes de RAM. A indústria automóvel deixou há muito de ser um consumidor marginal de memória e segue agora uma trajetória de crescimento comparável à dos data centers, com exigências cada vez maiores em desempenho e capacidade.

Uma nova onda de choque para as marcas

Esta dependência crescente surge num momento particularmente sensível. Entre 2020 e 2023, a escassez de semicondutores paralisou fábricas, atrasou entregas e obrigou à produção de veículos sem determinados equipamentos. Quando esse episódio começava a dissipar-se, surgem novos alertas. Um relatório do UBS citado pelo ‘L’Automobile Magazine’ aponta que a escassez de chips de memória poderá tornar-se um problema grave para a cadeia de abastecimento automóvel a partir do segundo trimestre de 2026, com aumentos de preços que podem ultrapassar os 100%.

O custo direto da memória num veículo situa-se atualmente entre 25 e 150 euros por unidade. Isoladamente, estes valores parecem reduzidos, mas multiplicados por centenas de milhares de automóveis, o impacto nas margens torna-se significativo num setor altamente competitivo. Os fabricantes mais expostos são aqueles que dependem fortemente de eletrónica embarcada, como a Tesla, a Rivian, a Xiaomi, mas também grupos tradicionais como a Volkswagen ou a Renault.

Matthew Beecham, analista da S&P Global Mobility, alerta que as marcas têm pouco tempo para repensar as suas arquiteturas eletrónicas e assegurar o fornecimento. Na sua perspetiva, não estão excluídas perturbações já em 2026 e 2027, nem um cenário particularmente caótico em 2028, quando muitas empresas poderão ser forçadas a abandonar gerações antigas de chips em favor de soluções ainda mais exigentes em memória.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.