“Prata ou chumbo”: como traficantes de droga compram a paz social nos bairros pobres de França com festas infantis e mudanças

Cidade portuária registou 49 mortes relacionadas com ajustes de contas entre gangs em 2023, refletindo a gravidade do fenómeno

Francisco Laranjeira
Janeiro 19, 2026
15:48

O assassinato de Mehdi Kessaci, de 18 anos, em Marselha no final de novembro último, abalou França ao expor uma nova dimensão do crime organizado no país. Mehdi era irmão do político e ativista de esquerda Amine Kessaci e a morte do jovem, segundo as autoridades, terá sido um aviso ao irmão mais velho, conhecido pelo seu combate à violência das drogas. A cidade portuária registou 49 mortes relacionadas com ajustes de contas entre gangs em 2023, refletindo a gravidade do fenómeno.

Embora a violência letal ocupe as manchetes, especialistas alertam para outro problema crescente: o controlo social exercido por grupos criminosos sobre determinados bairros. Estas organizações, segundo analistas, funcionam como máfias, criando vínculos territoriais que impõem subordinação e um código de silêncio entre os moradores, características que se enquadram na definição legal italiana de máfia de 1982.

Bagnols-sur-Cèze: um exemplo de “poder social” do tráfico

Na cidade de Bagnols-sur-Cèze, a 30 quilómetros de Avignon, um gang local, conhecido como Gitani, tornou-se exemplo de como os traficantes conseguem exercer influência sobre a população. No bairro de Escanaux, onde metade dos residentes vive abaixo do limiar da pobreza, a venda de droga gera receitas diárias entre 10.000 e 30.000 euros. Os pontos de venda estão localizados em áreas visíveis, próximas de escolas e espaços públicos, marcados com grafittis que indicam onde se encontra o “forno”, como os próprios traficantes designam o local.

O grupo distribuiu cartas aos moradores pedindo desculpa por ruídos e incómodos, prometendo assistência em tarefas domésticas e organização de festas para crianças. Esta estratégia, descrita como “prata ou chumbo” por responsáveis policiais, combina repressão e concessões para garantir a cooperação da população.

Estratégias de visibilidade e recrutamento

Segundo a comissária Célia Bobet, responsável pelo programa Limits do Governo francês, os gangs deixaram de operar discretamente e passaram a exibir-se publicamente, usando eventos e manifestações para reforçar a sua presença. Em Marselha, subúrbios como Cavaillon viram gangs instalar piscinas insufláveis, castelos insufláveis e trampolins em datas festivas, enquanto noutros locais, como Orange ou Nîmes, tentaram promover ações sociais, como distribuição de material escolar, para ganhar influência sobre a população.

O criminologista Michel Gandilhon alerta que, apesar da semelhança com práticas de cartéis na Colômbia, a escala ainda é limitada. No entanto, esta filantropia estratégica permite recrutar jovens vulneráveis, muitos deles menores que abandonaram a escola, atraídos por pagamentos diários de 100 a 150 euros, incluindo alimentação e alojamento. Este fenómeno é descrito como “narcoturismo”, com traficantes a trazer jovens de outras cidades ou zonas rurais para reforçar as suas operações.

O impacto social e económico

O aumento do consumo de cocaína em França, que atinge 2,7% da população, contribuiu para triplicar as receitas do tráfico desde 2010, passando de 2,5 mil milhões para cerca de 7 mil milhões de euros anuais. A banalização destes pontos de venda e a interligação entre zonas urbanas e rurais dificultam a ação das autoridades e evidenciam um problema social profundo, que afeta bairros empobrecidos, gera medo entre os moradores e compromete a segurança comunitária.

Segundo Adelphi’cité, associação local, os traficantes exploram o abandono social e a pobreza para instalar pontos de venda, aproveitando-se da fragilidade institucional para expandir o seu controlo territorial e social.

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