Portugueses gastaram 22 milhões de euros no OnlyFans em menos de um ano

Apesar do volume financeiro elevado, apenas uma minoria consegue transformar a criação de conteúdos numa fonte de rendimento principal

Revista de Imprensa
Fevereiro 6, 2026
10:51

O OnlyFans continua a crescer em Portugal, impulsionado por mudanças sociais aceleradas pela pandemia e por um modelo digital baseado na subscrição de conteúdos personalizados. Entre janeiro e novembro de 2024, os portugueses gastaram cerca de 22 milhões de euros na plataforma, um aumento de 12% face ao mesmo período do ano anterior, segundo estimativas do ‘OnlyGuider’ citadas pelo semanário ‘Expresso’. Apesar do volume financeiro elevado, apenas uma minoria consegue transformar a criação de conteúdos numa fonte de rendimento principal.

Alya Ferrari, nome artístico de uma jovem portuguesa de 23 anos, é uma dessas exceções. Natural de Viana do Castelo e formada em Marketing Digital, criou uma conta no OnlyFans há dois anos e passou a dedicar-se em exclusivo à produção de conteúdos eróticos. Garante que os rendimentos mensais atingem valores de cinco dígitos, ou seja, pelo menos 10 mil euros, sobretudo através de vídeos personalizados, cuja base de preço ronda os 100 euros por cinco minutos, podendo aumentar consoante pedidos específicos.

A pandemia como ponto de viragem da plataforma

Lançado em 2016 como um espaço para criadores de áreas diversas, o OnlyFans sofreu uma transformação profunda em 2020, durante a pandemia, quando passou a ser usado massivamente para conteúdos de cariz sexual. Desde então, o crescimento tem sido exponencial. O número global de utilizadores passou de 13,5 milhões em 2019 para 377,5 milhões em 2024, enquanto os gastos totais aumentaram de cerca de 199 milhões de euros para 6 mil milhões no mesmo período.

Segundo o ‘Expresso’, este crescimento reflete uma mudança mais ampla na forma como as tecnologias digitais são usadas para satisfazer desejos e necessidades emocionais. Para Daniel Cardoso, docente da Universidade Lusófona, o fenómeno deve ser lido como uma normalização das relações mediadas por ecrãs, num contexto de escassez de tempo e aceleração da vida contemporânea, em que o telemóvel permite reduzir a “fricção” no acesso a experiências personalizadas.

Relações parassociais e novos fetiches digitais

Embora frequentemente comparado à pornografia, o OnlyFans distingue-se pelo tipo de ligação estabelecida entre criadores e subscritores. Trata-se de uma relação parassocial, em que quem paga não adquire apenas imagens ou vídeos, mas a fantasia de uma ligação emocional contratualizada, com ou sem dimensão sexual.

Corvus, nome artístico de um criador português de 27 anos, relata experiências que ilustram essa dinâmica, incluindo pedidos associados a práticas como findom, um fetiche baseado na dominação financeira. Apesar de considerar a atividade um trabalho legítimo, acabou por afastar-se da plataforma devido à pressão para produzir conteúdos de forma constante e a situações que considerou embaraçosas. Num mês particularmente positivo, chegou a ganhar cerca de 400 euros.

A maioria dos criadores são mulheres, e muitas vendem a chamada girlfriend experience, um serviço que simula uma relação de namorada virtual. Segundo Mariana Branco, investigadora e autora de uma tese sobre o OnlyFans, este tipo de ligação é difícil de quebrar, sobretudo entre consumidores em situações de solidão extrema, e contribui para a idealização da mulher como figura submissa, reforçada pela presença das criadoras noutras redes sociais usadas para promover proximidade emocional.

Riscos, anonimato e enquadramento legal

Apesar de muitas interações serem descritas como positivas, existem riscos significativos. Jully Rose, criadora de conteúdos desde os 18 anos, relata um episódio de perseguição que a deixou em estado de choque, após um seguidor a contactar num hotel e ameaçar descobrir o número do quarto. Para Daniel Cardoso, os principais perigos incluem violência psicológica, perseguição, extorsão e divulgação não consentida de dados pessoais ou conteúdos pagos.

Uma investigação da ‘Reuters’, em 2024, identificou alegações de abuso e exploração em vários países. Ainda assim, a plataforma não é diretamente responsabilizada pelo conteúdo publicado, sendo equiparada a uma rede social pela legislação europeia. De acordo com advogadas da sociedade Antas da Cunha Ecija, o Regulamento dos Serviços Digitais obriga à identificação e rastreabilidade dos utilizadores, enquanto a lei portuguesa do cibercrime prevê mecanismos de investigação e cooperação com as autoridades.

Um modelo lucrativo para poucos

Embora os valores globais impressionem, os ganhos médios dos criadores são reduzidos. Em 2024, os 6 mil milhões de euros gastos por utilizadores, distribuídos por cerca de 4,6 milhões de criadores, correspondem a uma média mensal de cerca de 130 euros por pessoa. Apenas uma fração muito pequena aufere rendimentos elevados, geralmente associados a influencers com grande visibilidade noutras plataformas.

O discurso de empoderamento e empreendedorismo individual, associado à venda de um estilo de vida luxuoso, é considerado enganador por especialistas. Para a empresa, no entanto, o modelo é altamente rentável. O OnlyFans atua como intermediário, sem deter ativos nem estabelecer vínculos laborais diretos, cobrando uma comissão de 20% sobre cada transação. Em 2024, a empresa-mãe registou receitas na ordem dos 1,2 mil milhões de euros.

Apesar de, para algumas pessoas, o OnlyFans poder representar um espaço de exploração segura de desejos considerados tabu, Jully Rose deixa um aviso claro: a plataforma não deve ser encarada como solução rápida para dificuldades económicas. A maioria não ganha o suficiente para justificar os riscos, e as expectativas criadas em torno do sucesso são, na prática, inalcançáveis para quase todos.

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