Portugal vai reforçar de forma significativa a sua capacidade de vigilância marítima, investigação científica e resposta a ameaças híbridas com a entrada ao serviço do ‘NRP D. João II’, um navio multifunções concebido para operar drones aéreos, de superfície e subaquáticos em missões de longa duração. A embarcação, com entrega prevista para o segundo semestre deste ano, poderá alojar até 200 pessoas em cenários de emergência, segundo a ‘Euronews’.
A aposta portuguesa surge num contexto internacional marcado pela rápida evolução dos sistemas não tripulados, que passaram de plataformas de reconhecimento para instrumentos centrais de vigilância e projeção de poder no domínio marítimo. Graças aos drones, países sem capacidade financeira para operar porta-aviões tradicionais conseguem hoje alargar o seu alcance operacional com custos substancialmente mais baixos.
Especialistas em Defesa sublinham que um porta-aviões nuclear americano da classe Ford pode custar cerca de 13 mil milhões de dólares, enquanto soluções baseadas em drones oferecem maior agilidade, menor risco humano e uma resposta mais rápida a crises. Num mundo em que mais de 70% da superfície é coberta por água, a capacidade de dispor de plataformas móveis e flexíveis tornou-se estratégica.
Portugal na linha da frente europeia
Apesar de China, Irão e Turquia já estarem a desenvolver ou a operar navios dedicados a sistemas autónomos, Portugal assume-se como o primeiro país da União Europeia a avançar com um porta-drones concebido de raiz. O projeto materializa-se na chamada Plataforma Naval Multifuncional, uma ambição amadurecida desde o final da última década no seio da Marinha portuguesa.
O ‘NRP D. João II’, batizado em homenagem ao monarca associado à expansão marítima portuguesa, representa um investimento total de 132 milhões de euros. A maior parte do financiamento é assegurada por fundos europeus do Plano de Recuperação e Resiliência, sendo o restante suportado pelo Estado português. A construção está a cargo do grupo neerlandês Damen, nos estaleiros de Galati, na Roménia, onde o corte da primeira chapa ocorreu em outubro de 2024.
A plataforma Naval Multifuncional, designada por NRP Dom João II, teve o corte da primeira chapa e a tradicional fixação de uma moeda.
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— Marinha (@MarinhaPT) October 3, 2024
Na assinatura do contrato, o então chefe do Estado-Maior da Armada, Henrique Gouveia e Melo, classificou o navio como um “ponto de não retorno para a modernidade”, sublinhando que se trata de uma plataforma transformadora no quadro de uma Marinha tecnologicamente avançada e robotizada. Em entrevista à ‘Euronews’, o responsável considerou o conceito “revolucionário” para responder às exigências militares do século XXI.
Um navio modular e altamente flexível
Com 107,6 metros de comprimento, velocidade máxima de 15,5 nós e autonomia até 45 dias, o ‘NRP D. João II’ contará com uma guarnição de 48 militares e capacidade para transportar mais 42 especialistas, incluindo cientistas e operadores de sistemas não tripulados. Em situações de emergência, poderá acolher temporariamente entre 100 e 200 pessoas.
O convés amplo permite o lançamento e recuperação de drones aéreos, complementado por hangares destinados à sua montagem e manutenção. Para os drones de superfície e subaquáticos, o navio dispõe de rampas, sistemas de recolha e equipamentos de comunicação, assegurando operações coordenadas em diferentes domínios. A plataforma inclui ainda um convés de voo apto a operar helicópteros médios e pesados.
A bordo será possível transportar contentores modulares, viaturas ligeiras, embarcações auxiliares, estruturas hospitalares e equipamentos especializados, incluindo o ROV Luso, um veículo operado remotamente capaz de atingir profundidades de seis mil metros. Esta arquitetura modular permite adaptar rapidamente o navio a diferentes perfis de missão, sem alterações estruturais significativas.
Da ciência à soberania nacional
O ‘NRP D. João II’ foi concebido para apoiar missões científicas, de segurança e de proteção civil. As operações incluem recolha e transmissão em tempo real de dados oceanográficos, monitorização ambiental, busca e salvamento, resposta a catástrofes e vigilância da soberania marítima. Está também preparado para operações de evacuação de cidadãos em zonas de risco ou conflito.
Os sistemas não tripulados a bordo poderão operar em simultâneo, em missões de média e longa duração, respeitando a regulamentação do espaço aéreo e marítimo. Sempre que possível, os drones utilizados serão de fabrico nacional, no âmbito de parcerias com empresas portuguesas, embora não estejam excluídas cooperações internacionais, incluindo no domínio dos drones subaquáticos.
A plataforma foi ainda projetada para integrar progressivamente tecnologias emergentes, como aplicações de Inteligência Artificial, destinadas ao processamento de grandes volumes de dados, navegação assistida e apoio à decisão, mantendo sempre a supervisão humana e o cumprimento dos requisitos éticos e legais.
Resposta a um espaço marítimo estratégico
Portugal detém um dos maiores espaços marítimos do mundo, com cerca de quatro milhões de quilómetros quadrados, e a terceira maior Zona Económica Exclusiva da Europa. Esta dimensão impõe responsabilidades acrescidas em matéria de vigilância, proteção de infraestruturas críticas e deteção de ameaças híbridas, como sabotagens ou ações encobertas.
A Marinha portuguesa tem acompanhado o aumento da atividade naval russa no Atlântico, incluindo a presença de submarinos e navios de espionagem capazes de interferir com cabos submarinos. Neste contexto, a recolha e análise de dados proporcionadas pelo ‘NRP D. João II’ são consideradas essenciais para a identificação precoce de atividades anómalas e para o reforço da capacidade de resposta nacional e europeia.
Segundo a ‘Euronews’, o navio insere-se numa estratégia mais ampla de inovação naval, apoiada por exercícios como o REPMUS, considerado o maior do mundo na experimentação operacional de sistemas não tripulados. Este conhecimento acumulado contribuiu diretamente para o desenvolvimento do porta-drones português, num cenário internacional cada vez mais instável e exigente.














