Portugal é o único país da Europa com excesso de mortalidade: há 30 dias que soma registos históricos

Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) explicam que Portugal apresenta um excesso de mortalidade de cerca de 22% desde a primeira semana de dezembro, face à mortalidade esperada para esta época do ano

Revista de Imprensa
Janeiro 12, 2026
9:58

Portugal atravessa um período prolongado de excesso de mortalidade, com 30 dias consecutivos acima dos níveis expectáveis, um cenário que se agravou no arranque do ano. A 2 de janeiro foram registados 540 óbitos, o valor diário mais elevado dos últimos dois anos, correspondente a um excesso de mortalidade de 52%. Dois dias depois, a 4 de janeiro, voltou a ser ultrapassada a fasquia das 500 mortes num só dia.

A comparação europeia coloca Portugal como o único país da Europa com o maior excesso de mortalidade. De acordo com dados da rede EuroMOMO, citados pelo jornal ‘Expresso’, na semana 52 de 2025 o país apresentava um excesso de mortalidade classificado como “muito elevado”, numa altura em que a maioria dos países europeus já não registava excesso de óbitos. Espanha chegou a apresentar um cenário mais grave na semana 50, mas a situação inverteu-se nas semanas seguintes.

Frio e gripe explicam subida acentuada das mortes

Em declarações ao semanário, a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) explicam que Portugal apresenta um excesso de mortalidade de cerca de 22% desde a primeira semana de dezembro, face à mortalidade esperada para esta época do ano. As autoridades de saúde apontam uma combinação de fatores, nomeadamente as temperaturas baixas e a epidemia de gripe, que atingiu nível epidémico no final de novembro.

A fase epidémica da gripe sazonal iniciou-se mais cedo em 2025 e a transmissão avançou rapidamente para os grupos etários mais velhos, considerados mais vulneráveis. O subtipo do vírus em circulação, o H3N1, está também associado a um maior impacto na mortalidade, contribuindo para o agravamento do cenário.

A este contexto juntam-se vários dias consecutivos de frio intenso, com um impacto conhecido na descompensação de doenças crónicas, em particular respiratórias e cardiovasculares.

Doenças respiratórias disparam no pico do inverno

A análise preliminar das causas de morte revela um aumento significativo da mortalidade por doenças do aparelho respiratório durante este período. A proporção destas mortes passou de 9,7% no início da época gripal, na semana 40 de 2025, para 17% na semana 52. Foi também identificado um ligeiro aumento das mortes por doenças cardiovasculares e metabólicas, fenómeno frequentemente associado à exposição prolongada ao frio, sobretudo em populações mais idosas e com doença crónica prévia.

Apesar da duração e da dimensão do excesso de mortalidade — apenas nos últimos sete dias registaram-se 832 óbitos em excesso, segundo dados do SICO —, a DGS e o INSA sublinham que os padrões observados são consistentes com o que historicamente ocorre em períodos de intensa circulação de vírus respiratórios e condições climáticas adversas, não havendo, até ao momento, indícios de fatores extraordinários ou inesperados.

Idosos mais afetados e impacto regional desigual

A população com 65 ou mais anos tem sido a mais afetada pelo excesso de mortalidade, com especial incidência nas pessoas com 85 ou mais anos, que apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos combinados das infeções respiratórias e das temperaturas extremas.

Em termos regionais, o Alentejo e o Algarve destacam-se como as regiões com maior excesso de mortalidade proporcional. As autoridades admitem que fatores como maior hesitação vacinal, características demográficas e situações de privação socioeconómica estruturais possam ajudar a explicar este impacto mais acentuado.

Mais mortes em 2025, mas balanço ainda incompleto

O ano de 2025 terminou com 122 mil mortes em Portugal, acima das 116 mil registadas em 2024. Em dezembro, morreram 12.842 pessoas, quando no mesmo mês do ano anterior tinham sido contabilizados 10.939 óbitos. No entanto, como a gripe sazonal surgiu mais cedo neste inverno, as autoridades defendem que será necessário aguardar pelo fim da fase epidémica para um balanço final do excesso de mortalidade associado a este fator.

Para Bernardo Gomes, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, este ciclo prolongado de excesso de mortalidade não é surpreendente, tendo em conta a conjugação de baixas temperaturas, a estirpe gripal em circulação e uma população envelhecida, num país onde persistem carências habitacionais e pobreza energética, que agravam os riscos durante períodos de frio intenso e elevada circulação de vírus respiratórios.

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