Política de Trump em apaziguar Putin pode revelar-se “catastrófica” para a Europa, avisa especialista

Historiador Christian Goeschel comparou o atual momento com a Conferência de Munique em 1938

Francisco Laranjeira
Setembro 23, 2025
17:54

As tentativas de Donald Trump em apaziguar Vladimir Putin em relação à guerra na Ucrânia podem revelar-se “catastróficas”, salientou o historiador Christian Goeschel em declarações à ‘Euronews’

Segundo o historiador e professor de história europeia moderna na Universidade de Manchester, “desde 1938, quando o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain e o seu homólogo francês Edouard Daladier fizeram concessões à Alemanha nazi sobre a cabeça da Checoslováquia, a palavra apaziguamento adquiriu um sabor desagradável na linguagem comum e no debate político”.

“É a tentativa de evitar conflitos armados e guerras através de concessões de longo alcance”, apontou o historiador, coautor do novo livro “Munich ’38 – The World at the Crossroads”, que será publicado no início do próximo ano.

Na Conferência de Munique, em 1938, Chamberlain e Daladier cederam às ameaças de Adolf Hitler. Grã-Bretanha e França abandonaram a Checoslováquia à sua sorte. O Acordo de Munique estipulava que a Checoslováquia tinha de ceder a região dos Sudetos à Alemanha e abandonar o território no prazo de 10 dias.

Chamberlain e Daladier foram enganados pelas promessas vazias do ditador alemão e, em vez de manter a paz, Hitler desencadeou a II Guerra Mundial poucos meses depois. Para Goeschel, é possível traçar paralelos entre a situação em Munique em 1938 e a atual exigência da Rússia de grande parte do leste da Ucrânia, embora tenha salientado que qualquer comparação não deve ser vista como uma equação.

“Não podemos simplesmente equiparar Putin a Hitler, não é essa a questão”, afirmou Goeschel. “Trata-se de como as democracias liberais, como o Ocidente, devem proceder para preservar valores fundamentais, ou seja, a liberdade, a separação democrática dos poderes e o direito dos povos à autodeterminação. Trata-se de compreender melhor o que pode acontecer se as potências ocidentais agirem de forma demasiado tímida em relação às ditaduras expansionistas e lhes permitirem conquistar territórios.”

Desde a reeleição de Trump à Casa Branca, a situação tornou-se mais complicada, segundo o historiador. “O comportamento de Trump em relação a Putin não é muito robusto em comparação com o comportamento mais dominante do seu antecessor Biden”, indicou, salientando que se o presidente americano ou qualquer potência ocidental chegasse a um acordo com Putin sem o consentimento da Ucrânia, isso seria “catastrófico, pois alimentaria o apetite da Rússia por novas conquistas territoriais”.

Goeschel afirmou também “que existe um completo equívoco por parte das potências ocidentais quanto aos objetivos militares da Rússia”, acrescentando que os democratas ocidentais “querem evitar a guerra, enquanto a prontidão militar da Europa não está em boas condições”. “Há muito tempo que dependemos da proteção militar dos EUA. Estas são as principais razões pelas quais demorámos tanto tempo a acordar e perceber o quão perigoso Putin é”, afirmou.

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