Pintura rara de Frida Kahlo vai hoje a leilão e pode ultrapassar os 60 milhões de dólares

Uma pintura rara de Frida Kahlo, considerada uma das mais marcantes do período surrealista da artista mexicana, será leiloada esta quinta-feira à noite, em Nova Iorque, num dos eventos mais aguardados do ano no mercado da arte.

Pedro Gonçalves
Novembro 20, 2025
8:15

Uma pintura rara de Frida Kahlo, considerada uma das mais marcantes do período surrealista da artista mexicana, será leiloada esta quinta-feira à noite, em Nova Iorque, num dos eventos mais aguardados do ano no mercado da arte. El sueño (La cama), datada de 1940 e descrita pela Sotheby’s como um exemplo excecional do imaginário onírico de Kahlo, poderá estabelecer um novo recorde mundial para obras realizadas por mulheres.

A obra, que retrata a artista adormecida numa cama de dossel esculpido, coberta por uma massa de vinhas entrelaçadas e com um esqueleto reclinado sobre si, é apontada pela leiloeira como um dos momentos mais intensos e enigmáticos do percurso de Kahlo. A responsável pela área de arte latino-americana da Sotheby’s, Anna Di Stasi, afirma que “El sueño se destaca entre os maiores trabalhos de Frida Kahlo — um exemplo raro e impactante dos seus impulsos mais surrealistas”, acrescentando que a artista consegue unir “imagética onírica, precisão simbólica e uma intensidade emocional incomparável, criando uma obra profundamente pessoal e universalmente ressonante”.

A Sotheby’s estima que El sueño (La cama) alcance um valor entre 40 e 60 milhões de dólares. Caso se confirme, poderá ultrapassar o recorde estabelecido em 2014 por Georgia O’Keeffe, cuja obra Jimson Weed/White Flower No. 1 foi arrematada por 44,4 milhões de dólares. Será igualmente uma nova fasquia para a própria Kahlo, que em 2021 viu a pintura Diego y yo atingir 34,9 milhões de dólares, então o preço mais elevado de sempre para uma obra latino-americana.

Este leilão decorre numa fase de abrandamento global das vendas de arte, marcada por reestruturações financeiras em museus e pelo fecho de várias galerias de referência. Ainda assim, o interesse por esta obra é elevado, num contexto em que artistas mulheres surrealistas têm conquistado crescente atenção de colecionadores, e Kahlo permanece numa categoria restrita de criadores com impacto transversal — ao lado de nomes como Andy Warhol ou Jean-Michel Basquiat.

A duradoura atração pelo trabalho de Kahlo resulta, em parte, da intensidade autobiográfica dos seus autorretratos, frequentemente centrados na dor física, na política, na identidade e na relação simbiótica com o mundo que a rodeia. A historiadora de arte Sharyn R. Udall descreveu, em 2003, que “as suas pinturas contam histórias — íntimas, envolventes, aterradoras e trágicas. Quando Kahlo olhava para o espelho escuro da morte, via-se a si própria”, acrescentando que, através da pintura, procurava “sobreviver à dor, compreendê-la e representá-la em imagens carregadas de ironia, fantasia e alegoria”.

A força da obra de Kahlo continua a expandir-se. No último ano, mais de uma dezena de museus internacionais dedicaram exposições à artista, incluindo experiências imersivas que viajaram globalmente. O Museum of Fine Arts de Houston prepara uma grande retrospetiva intitulada Frida: The Making of an Icon, que será apresentada no Tate Modern, em Londres, no próximo mês de junho. Além disso, abriu recentemente, na Cidade do México, um novo museu dedicado à vida inicial da artista — o terceiro espaço museológico da capital a centrar-se exclusivamente no legado de Kahlo.

Com o leilão agendado para esta noite, a expectativa é que El sueño (La cama) possa redefinir não apenas o lugar de Frida Kahlo no mercado da arte, mas também o valor histórico atribuído às obras criadas por mulheres. O desfecho poderá estabelecer um marco que o setor acompanha atentamente.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.