O aumento do número de idosos que cometem delitos menores para garantir abrigo, alimentação e cuidados de saúde está a transformar as prisões japonesas em espaços cada vez mais vocacionados para esta faixa etária, onde a reintegração social ganha peso face à punição. Segundo o ‘El País’, o fenómeno expõe fragilidades profundas no sistema de apoio social de um país que envelhece a um ritmo acelerado.
Em várias cadeias, multiplicam-se os reclusos com dificuldades de mobilidade, problemas de saúde mental e carências básicas que, fora da prisão, não encontram resposta adequada. Alguns especialistas alertam, no entanto, para o elevado custo económico deste modelo e para o sinal de alarme que representa uma sociedade onde a prisão surge como alternativa à exclusão social.
Reclusos com andarilhos e fraldas na prisão de Fukushima
Na prisão de Fukushima, a nordeste de Tóquio, há reclusos que necessitam de andarilhos para se deslocarem e outros que não conseguem mudar as próprias fraldas. “A nossa principal preocupação é evitar que problemas de saúde mental, como a demência, se agravem até ao momento em que saem da prisão”, explicou ao ‘El País’ Yasuo Nakabayashi, chefe do Departamento de Tratamento Correcional da instituição.
Segundo o responsável, os reclusos com problemas físicos graves são encaminhados para unidades com meios médicos adequados, enquanto os que sofrem de perturbações mentais ficam sob responsabilidade direta da prisão. A instalação, situada a cerca de 15 minutos de táxi da estação central da capital da província, tem capacidade para 1.655 reclusos, mas alberga atualmente apenas 860, reflexo do declínio populacional do Japão.
Dos reclusos detidos em Fukushima, apenas 25 têm mais de 65 anos, representando cerca de 3% da população prisional local. Ainda assim, o perfil etário acompanha uma tendência nacional mais ampla.
Pequenos furtos para garantir abrigo e refeições
De acordo com estatísticas prisionais de 2024, citadas pelo ‘El País’, 13,5% dos 40.544 reclusos registados no Japão tinham mais de 65 anos. Uma parte significativa acabou encarcerada após cometer delitos menores, sobretudo pequenos furtos em lojas, com o objetivo de garantir um local onde dormir e pelo menos uma refeição quente.
O Livro Branco sobre o Crime de 2024 indica que 71% dos crimes cometidos por mulheres idosas e 39% dos praticados por homens idosos foram pequenos furtos, revelando um padrão associado à pobreza, ao isolamento e à ausência de redes de apoio.
Um país envelhecido e socialmente fragilizado
O Japão é a sociedade mais envelhecida do mundo industrializado. Os homens vivem, em média, 81 anos e as mulheres 87, e cerca de 29,4% dos 123 milhões de habitantes têm 65 ou mais anos, segundo dados oficiais de 2025. A queda da natalidade, a escassez de mão-de-obra e a relutância em incentivar a imigração têm levado muitos japoneses a adiar a reforma e a aceitar empregos a tempo parcial em idade avançada.
Muitos idosos que trabalharam na informalidade recebem pensões insuficientes para viver de forma independente, o que agrava o isolamento social. Desde 2021, o Japão tem um Ministério da Solidão e do Isolamento, criado para responder a este fenómeno. Em 2024, a polícia identificou 58.044 pessoas com mais de 65 anos que viviam sozinhas e morreram em casa, o equivalente a 76% dos corpos encontrados em residências.
Reincidência e rotina dentro da prisão
Em Fukushima, quase todos os reclusos idosos são reincidentes. “Alguns estão aqui pela segunda vez, outros pela décima”, refere Nakabayashi. A rotina diária inclui trabalho ligeiro e atividades educativas. Numa das oficinas, homens de cabelos brancos, alguns apoiados em andarilhos, montam molas de roupa durante uma hora, seis dias por semana, enquanto recebem aulas sobre temas básicos, como o funcionamento do corpo humano.
Desde o ano passado, entrou em vigor uma reforma do Código Penal que aboliu o trabalho prisional obrigatório, a primeira alteração do género desde 1907. O objetivo é dedicar mais tempo à reabilitação e à educação, reduzindo a reincidência. Até então, não havia distinção no tratamento entre reincidentes por necessidade e criminosos ligados à yakuza.
“Sou feliz na prisão”
Um dos reclusos entrevistados pelo ‘El País’, identificado como N., tem 67 anos e cumpre uma pena de quatro anos e meio por uma morte causada por condução negligente sem carta. Após sofrer um AVC, recebeu apoio na reabilitação e afirma ter encontrado na prisão uma oportunidade tardia de aprendizagem.
“Sei que pode parecer estranho, mas sou feliz na prisão”, confessa. Questionado sobre o regresso à sociedade, responde que não pretende sair. Diz querer evitar causar novos problemas e acredita que, mesmo em confinamento, é possível aprender e mudar.
Um sistema caro e socialmente falhado
Analistas como Akio Doteuchi, do Instituto de Seguros Nippon Life, consideram que a preferência de idosos pela prisão revela uma falha estrutural do sistema de bem-estar social. “Nenhum país pode considerar-se saudável quando os idosos preferem estar na prisão a estar fora dela”, escreveu num documento de 2015.
Em 2022, o orçamento anual das prisões japonesas atingiu 1,431 mil milhões de euros. Com 41.541 reclusos, o custo médio foi de 34.447 euros por pessoa por ano, cerca de 2.870 euros mensais. Em contraste, a pensão mínima após 40 anos de contribuições ronda os 372 euros mensais, um valor insuficiente para uma vida independente.
Ao regressar à cela, apoiado no seu andarilho, N. avança lentamente pelos corredores, sob o olhar atento do guarda que o acompanha, como se a prisão fosse, paradoxalmente, o único lugar onde ainda encontra estabilidade.














