A segunda volta das eleições presidenciais de 2026 coloca frente a frente dois candidatos com visões políticas antagónicas e perfis socioeconómicos profundamente distintos. André Ventura, líder do Chega, e António José Seguro, antigo secretário-geral do PS, chegam ao confronto decisivo com percursos pessoais, profissionais e patrimoniais que espelham essa diferença, num contexto eleitoral ainda marcado pelas consequências das tempestades que assolaram o país.
De acordo com a revista ‘Sábado‘, as declarações entregues ao Tribunal Constitucional e à Entidade para a Transparência permitem traçar um retrato claro dos dois candidatos, tanto ao nível da origem social como da forma como gerem rendimentos, património e atividade profissional.
Um perfil patrimonial simples no caso de André Ventura
André Ventura apresenta uma situação patrimonial considerada plana quando comparada com a de outros responsáveis políticos. A mais recente declaração disponível, entregue em junho de 2025 e referente ao ano fiscal de 2024, não deverá sofrer alterações relevantes antes das eleições, devido ao período de congelamento de 30 dias imposto pela Entidade para a Transparência.
O líder do Chega não declara qualquer imóvel em seu nome. A habitação onde reside pertence à mulher, Dina Nunes Ventura, com quem está casado em regime de comunhão de adquiridos, situando-se num condomínio de gama alta com piscina, no Parque das Nações, em Lisboa. Esta realidade contrasta com a descrição feita pelo próprio num debate televisivo, em que se referiu a uma casa de “30 metros quadrados”.
Em termos de rendimentos, Ventura declarou exclusivamente os valores auferidos como deputado da Assembleia da República, num total de 62.714 euros brutos em 2024. Não possui participações em empresas, ações, quotas, veículos automóveis ou quaisquer produtos financeiros. No sistema bancário, declarou apenas uma conta à ordem com um saldo superior a 120 mil euros, sem qualquer tipo de passivo.
Segundo a revista semanal, esta ausência de encargos fixos e de investimentos explica a acumulação gradual de poupança ao longo dos anos. Em declarações anteriores, André Ventura justificou esta opção afirmando não ter apetência para investimentos financeiros. Recorde-se ainda que, em 2017, foi sócio de uma pastelaria em Loures com o sogro, participação que alienou nesse mesmo ano. Em 2023, vendeu o BMW Série 1 que possuía, passando a deslocar-se num veículo do partido, com motorista e seguranças.
António José Seguro com rendimentos diversificados e atividade empresarial
Já António José Seguro apresenta uma declaração de rendimentos, património e interesses substancialmente mais complexa, refletindo a diversidade de fontes de rendimento e a atividade empresarial que desenvolveu após abandonar a liderança do PS, em 2014.
O candidato socialista tornou públicos os seus rendimentos através de uma declaração voluntária de transparência, revelando um rendimento anual de 54.647,35 euros em 2024, resultante de várias atividades. Entre estas incluem-se docência universitária, comentários políticos, rendimentos prediais e remunerações provenientes de empresas das quais é sócio-gerente.
Seguro declarou rendimentos obtidos através da Universidade Autónoma, do ISCSP, de comentários na ‘CNN Portugal’, bem como de direitos de autor e atividades de consultoria e gestão operacional. Sublinhou ainda não exercer cargos políticos, públicos ou partidários desde outubro de 2014, afastando qualquer conflito de interesses com a sua atividade privada.
Ao nível patrimonial, declarou não possuir contas à ordem com saldo superior a 50 salários mínimos, mas indicou duas aplicações a prazo de valor reduzido. É proprietário e coproprietário, com a mulher, de três apartamentos, um em Lisboa e dois nas Caldas da Rainha. Declarou igualmente direitos de crédito no valor global de 168 mil euros, sem especificar a sua origem.
No plano empresarial, as sociedades Amarcor, Mimos da Beira e N&A registaram, em conjunto, uma faturação superior a 347 mil euros em 2024, com 88% desse valor proveniente da atividade de alojamento local e da venda de produtos alimentares. O património das empresas inclui um terreno agrícola com mais de 3.600 hectares em Penamacor, seis casas afetas ao alojamento local e dois veículos automóveis.
Dois percursos, dois modelos de vida
Nascido em Algueirão-Mem Martins, André Ventura construiu o seu percurso na área urbana e política, sem atividade empresarial relevante nem investimentos. António José Seguro, natural de Penamacor, desenvolveu um modelo de vida ligado ao interior do país, combinando docência, comentário político e empreendedorismo local.
A eventual eleição de Seguro para Presidente da República representaria mais do que duplicar o seu rendimento mensal atual, já que o vencimento presidencial ultrapassa os 11.700 euros mensais, incluindo despesas de representação. Este domingo, os eleitores escolhem entre dois projetos políticos distintos, mas também entre dois percursos pessoais e económicos que refletem diferentes visões sobre o país.












