Aproximamo-nos a passos largos da Páscoa, uma época que é normalmente de encontro e confraternização em família, mas será que com a evolução da Covid-19 vamos poder ter uma Páscoa «normal»? Ou será pela segunda vez, à semelhança do ano passado, repleta de restrições?
Fomos procurar saber, junto de dois especialistas, como deve ser gerida esta altura do ano. Duas perspetivas um pouco diferentes, uma mais recetiva, outra mais restritiva, mas que convergem em pontos base: Devem ser mantidas restrições como a proibição de circulação entre concelhos, o limite dos agregados familiares e a utilização de máscaras.
Milton Severo, investigador do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), considera que «a situação agora é diferente da do Natal, temos uma incidência atual muito mais baixa do que tínhamos antes (de dois mil casos diários descemos para cerca de 600), o que quer dizer que o impacto de qualquer tipo de aumento de contactos será sempre inferior porque partimos de números muito mais baixos», começa por explicar.
Por sua vez, Henrique Oliveira, professor e investigador matemático do Instituto Superior Técnico, considera que «a doença está em regressão mas a vacinação não avançou ainda em larga escala. Precisamos de explorar com força o turismo de Verão para termos alguma retoma e isso só se consegue limitando fortemente a possibilidade de uma nova onda de contágios».
Tendo isso em conta, o primeiro acredita que as medidas não precisam de ser tão rigorosas, ainda assim concorda com a aplicação de «algumas restrições», nomeadamente a proibição de circulação entre concelhos, que já foi determinada pelo Governo. «Diria que é uma medida acertada para controlar a epidemia. Já sabemos que esse tipo de medidas têm efeito na diminuição do índice de transmissão (Rt)», afirmou.
Henrique Oliveira também concorda com a medida em questão. «O grande problema no Natal foi o vírus SARS-COV-2 ter passado das zonas de alta incidência para as zonas de baixa incidência», refere justificando a aplicação dessa restrição. Contudo, ao contrário do colega defende «medidas mais restritivas» nesta altura da Páscoa, «para evitar um reacender dos contágios, uma vez que o número de ativos ainda é alto».
Sobre a limitação do número de pessoas em espaços fechados, Milton Severo considera importante lembrar que grandes ajuntamentos são sempre de evitar, ainda nesta altura. «Quanto maiores forem os agregados familiares, maior é depois o Rt dentro de casa», explica.
«As pessoas têm de ter em conta que não devem juntar-se em grandes aglomerados», adianta, explicando que «tudo o que for acima de 10 pessoas já é um valor bastante elevado e arriscado», afirma dizendo que os seus cálculos apontam para «entre 6 e 10 pessoas no máximo».
Também Henrique Oliveira concorda com esta limitação, mas é ainda mais rigoroso no valor máximo de pessoas. «O ideal seria, para além de fiscalizar fortemente as deslocações, dar um número máximo de seis pessoas por agregado numa reunião familiar, durante a toda a quadra», adiantou.
Outra possibilidade será um confinamento mais restritivo nesta semana da Páscoa, como aquele em que nos encontrávamos antes de ser posto em prática o plano de reabertura. O investigador do ISPUP não considera necessário, lembrando mais uma vez que a incidência é muito mais baixa atualmente, considerando que o nível de confinamento atual «é suficiente». Já o professor do IST defende que «na Páscoa o pais deveria confinar entre quinta-feira e segunda-feira».
Questionados sobre se estas medidas serão suficientes para controlar a curva e evitar um novo ressurgimento, ambos concordam que sim. «Se forem cumpridas à risca sim. Estamos a caminho de ganhar esta batalha, os números são muito promissores», revela Henrique Oliveira, lembrando contudo que «as pessoas devem ainda usar máscaras de qualidade e usá-las mesmo em ambiente familiar, isto se não estiverem com as pessoas com que co-habitam regularmente».
Da mesma opinião é Milton Severo. «As medidas são suficientes, claro que temos de manter os cuidados básicos de higiene, uso de máscara, evitar ao máximo a tal aglomeração de pessoas, é fazer um esfoço para cumprir as regras», afirma. «As medidas implementadas e o tipo de confinamento que temos será suficiente para evitar um aumento semelhante ao que ocorreu no natal», conclui.














