A possibilidade de um acordo económico entre a Gronelândia e os EUA começa a ganhar espaço no debate político da ilha ártica, à medida que se aproxima uma reunião em Washington entre responsáveis americanos, dinamarqueses e gronelandeses para discutir o futuro do território.
De acordo com o jornal espanhol ‘ABC’, várias vozes no Parlamento da Gronelândia admitem que o interesse de Washington pode representar uma oportunidade que não deve ser rejeitada à partida.
Uma dessas posições é a da deputada Aki-Matilda Hoegh-Dam, que defendeu uma abordagem pragmática numa entrevista ao jornal ‘Politiken’, onde apelou a que os gronelandeses enfrentem “a realidade” e aproveitem o interesse demonstrado pelo presidente americano, Donald Trump. “É preciso falar um pouco sobre a realidade”, afirmou a deputada.
Eleita em 2019 para o Parlamento dinamarquês pelo partido Siumut, Hoegh-Dam rompeu com a formação política há quase um ano, em divergência com a sua linha sobre a independência da Gronelândia. Desde então, tem defendido posições mais assertivas quanto à necessidade de discutir a dependência económica estrutural do território e as alternativas disponíveis.
Embora rejeite explicitamente a ideia de uma “compra” da Gronelândia pelos EUA, a deputada considera essencial explorar “formas de cooperação mais estruturadas” com Washington, sublinhando que Nuuk deve tomar decisões de forma autónoma, independentemente de Copenhaga.
Unidade política, mas interesse crescente no Parlamento
Apesar destas posições, cinco líderes partidários do Parlamento da Gronelândia assinaram recentemente uma declaração conjunta reafirmando que “não queremos ser americanos, nem dinamarqueses; queremos ser gronelandeses”. Entre os signatários estão o atual primeiro-ministro regional, Jens-Frederik Nielsen, o ex-chefe do Governo Múte B. Egede e o dirigente independentista Pele Broberg.
Ainda assim, de acordo com o ‘ABC’, um documento divulgado pela Casa Branca antes da reunião desta semana sugere a possibilidade de um acordo especial entre os EUA e a Gronelândia, que implicaria um afastamento, pelo menos parcial, do Reino da Dinamarca. Esta hipótese está a despertar interesse entre vários deputados gronelandeses, que começam a encarar o cenário como um “mal menor” face à pressão crescente de Washington.
Pressão diplomática e cenário de independência
O professor Mikkel Gudsoe, especialista em negociação da Universidade de Aarhus, descreve a estratégia americana como “intimidação diplomática na sua pior forma”. Na sua análise, Trump está a forçar uma lógica de “tudo ou nada”, colocando Dinamarca e Gronelândia perante escolhas difíceis. Segundo Gudsoe, ou ambas aceitam um compromisso indesejado, ou enfrentam um cenário considerado inaceitável.
A pressão inclui, segundo informações citadas pela ‘Reuters’, um plano que prevê transferências diretas até cerca de 92 mil euros para cada um dos cerca de 57 mil habitantes da Gronelândia. A proposta americana implicaria, contudo, o avanço de um processo de independência formal, já que, apesar da ampla autonomia concedida pela Lei de Autoadministração de 2009, a política externa continua sob responsabilidade de Copenhaga.
Para Gudsoe, o objetivo de Washington poderá não ser imediato. O académico acredita que Trump estará a pensar a médio e longo prazo, procurando influenciar o contexto político antes das eleições gronelandesas previstas para 2029. Embora considere que uma ocupação militar da ilha seria “relativamente simples” do ponto de vista operacional, sublinha que não existe vontade política nos EUA para uma ação desse tipo contra um aliado como a Dinamarca.














