O número de crianças russas a receber educação domiciliar registou um crescimento significativo, à medida que os pais retiram cada vez mais os filhos das escolas em resposta à intensificação da propaganda de guerra e à pressão ideológica no sistema educativo do país.
Quase 100 mil crianças estavam matriculadas em programas de ensino doméstico no início do atual ano letivo, segundo dados do Ministério da Educação da Rússia citados pelo ‘The Moscow Times’. Só em 2025, 14.300 alunos passaram para o ensino domiciliar, um aumento de 16,8% face ao ano anterior, elevando o total para 99.400 crianças.
O crescimento abrange também os alunos que realizam exames finais. Em 2025, 20.800 estudantes de ensino doméstico completaram os exames do nono ano, face a 17.800 no ano anterior, enquanto os formandos do décimo primeiro ano aumentaram de 2.900 para 3.100.
Oficialmente, as crianças em educação domiciliar representam pouco mais de 0,5% do total de 18 milhões de estudantes russos em idade escolar. No entanto, este número pode ser superior, uma vez que as estatísticas incluem apenas os alunos formalmente matriculados nas escolas para efeitos de exames.
Ligação à guerra e à ideologia
A migração para a educação doméstica acelerou durante a pandemia de Covid-19 e manteve-se após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. A expansão de programas ideológicos nas escolas é outro fator determinante.
Desde setembro de 2023, as escolas russas realizam aulas obrigatórias intituladas “Conversas sobre o que importa”, centradas na guerra na Ucrânia e nas narrativas do Estado. As sessões incluem palestras de participantes do conflito, como ex-presidiários e membros de unidades militares privadas, descritas pelas autoridades como forma de incutir patriotismo e lealdade ao Estado.
Pais relataram que alunos que se recusam a participar das aulas são ameaçados de expulsão, e que são pressionados a gravar mensagens em vídeo ou a angariar fundos para as tropas russas.
Dados oficiais mostram que, tanto em 2023 como em 2024, o número de crianças em ensino domiciliar aumentou em mais de 15.000 por ano. Um estudo da Universidade Pedagógica Estatal de Moscovo revela que, entre 2016 e 2023, o número de alunos em educação familiar aumentou dez vezes.
Reação legislativa
O crescimento da educação doméstica tem levado a pedidos por maior fiscalização. Em janeiro, o deputado da Duma Estatal do Tartaristão, Ilya Volfson, instou o ministro da Educação, Sergei Kravtsov, a dificultar a transição das famílias para o ensino domiciliar, propondo avaliações de conhecimento pelo menos duas vezes por ano.
O deputado defende que crianças que não obtenham aprovação nessas avaliações voltem à escola, argumentando que os alunos em ensino domiciliar apresentam desempenho académico inferior ao dos colegas que frequentam a escola regularmente.














