Ozempic natural? Esta semente é aliada contra o apetite excessivo e a inflamação alimentar, revela estudo

Os alimentos ultraprocessados, geralmente ricos em gorduras saturadas e açúcares adicionados, têm sido associados a impactos negativos em praticamente todos os sistemas do organismo.

Pedro Gonçalves
Janeiro 31, 2026
14:00

Um estudo científico recente sugere que o consumo regular de sementes de chia pode ajudar a reduzir o apetite e a proteger o cérebro e o organismo dos efeitos inflamatórios associados às dietas ricas em alimentos ultraprocessados, um padrão alimentar cada vez mais dominante nas sociedades ocidentais. A investigação indica ainda que os mecanismos ativados pela chia no cérebro apresentam semelhanças com os observados em medicamentos utilizados no controlo do peso.

Os alimentos ultraprocessados, geralmente ricos em gorduras saturadas e açúcares adicionados, têm sido associados a impactos negativos em praticamente todos os sistemas do organismo. Um relatório recente coordenado pela revista The Lancet concluiu que, no Reino Unido, mais de metade das calorias consumidas diariamente provêm deste tipo de produtos, um hábito alimentar que contribui para o aumento da obesidade e da diabetes tipo 2 e que, além disso, pode desencadear processos inflamatórios no cérebro, elevando o risco de declínio cognitivo.

Os investigadores explicam que dietas ricas em gordura e açúcar perturbam o eixo intestino-cérebro, interferindo com os sinais de saciedade e promovendo o consumo excessivo de alimentos. Foi neste contexto que uma equipa de cientistas da Universidade Federal de Viçosa, no Brasil, decidiu avaliar se a introdução de derivados de chia poderia atenuar os danos provocados por uma alimentação desequilibrada.

O estudo, publicado na revista científica Nutrition, avaliou o impacto da farinha e do óleo de chia em ratos submetidos a uma dieta rica em gordura e frutose, concebida para reproduzir padrões alimentares humanos pouco saudáveis. Durante as primeiras oito semanas, a maioria dos animais seguiu esta dieta hipercalórica, com o objetivo de induzir alterações metabólicas semelhantes às observadas na população em geral, enquanto um grupo de controlo manteve uma alimentação considerada equilibrada.

Nas dez semanas seguintes, um grupo continuou a consumir a dieta rica em gordura e açúcar sem alterações, enquanto outros dois grupos passaram a ingerir a mesma dieta suplementada, respetivamente, com óleo de chia e com farinha de chia. No final do período experimental, os investigadores recolheram amostras de tecido cerebral para análise.

Os resultados revelaram diferenças claras entre os efeitos das duas formas de consumo. Os ratos alimentados com óleo de chia apresentaram um aumento da atividade de genes associados à supressão da fome, responsáveis pela produção das proteínas POMC e CART, que enviam sinais ao organismo indicando que a ingestão energética foi suficiente, promovendo a sensação de saciedade. Este efeito não foi observado nos animais que consumiram farinha de chia, embora ambos os grupos tenham demonstrado melhorias na resposta cerebral à leptina, uma hormona produzida pelas células adiposas que desempenha um papel central na regulação do apetite.

A investigação mostrou ainda que as dietas ricas em gordura e açúcar aumentaram a expressão de uma proteína associada à ativação de processos inflamatórios nas células cerebrais, enquanto a inclusão de chia na alimentação ajudou a atenuar essa resposta, protegendo o tecido cerebral contra danos inflamatórios. No caso da farinha de chia, os investigadores observaram efeitos particularmente relevantes, com compostos capazes de se ligar diretamente a recetores cerebrais envolvidos na regulação do apetite.

Na conclusão do estudo, a equipa científica afirma que “o consumo de farinha e óleo de chia, associado a uma dieta rica em gordura e frutose, modulou a expressão de genes envolvidos nos mecanismos de saciedade e de resposta inflamatória”, apontando esta estratégia alimentar como uma potencial abordagem para o controlo de doenças metabólicas associadas a dietas desequilibradas.

Apesar das alterações positivas ao nível da atividade cerebral e da inflamação, os investigadores sublinham que nenhum dos animais perdeu peso durante o estudo. Segundo a equipa, o elevado teor calórico da dieta administrada poderá ter mascarado eventuais benefícios na redução do peso corporal, acrescentando que mudanças comportamentais no consumo alimentar e efeitos no peso podem exigir períodos de observação mais prolongados.

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