Ozempic genérico de 14 euros está a chegar e pode revolucionar mercado de medicamentos para obesidade

Patentes da semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, começam a expirar em vários países fora dos grandes mercados ocidentais, abrindo caminho a uma vaga de medicamentos genéricos que promete transformar radicalmente o acesso e os preços destes tratamentos

Francisco Laranjeira
Janeiro 19, 2026
17:15

A hegemonia da Novo Nordisk no mercado global dos medicamentos para a diabetes e perda de peso está prestes a ser posta à prova. As patentes da semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, começam a expirar em vários países fora dos grandes mercados ocidentais, abrindo caminho a uma vaga de medicamentos genéricos que promete transformar radicalmente o acesso e os preços destes tratamentos, segundo o ‘El País’.

Um terço dos adultos obesos vive em países diretamente afetados por esta mudança, incluindo Canadá, China, Índia e Brasil. Nestes mercados, dezenas de fabricantes preparam-se para lançar versões genéricas de um medicamento que gerou receitas globais estimadas em cerca de 27,6 mil milhões de euros, desencadeando uma guerra de preços que poderá reduzir o custo mensal do tratamento para valores próximos dos 14 euros em alguns países.

Fim da exclusividade e pressão competitiva

As injeções de semaglutida representam quase dois terços das vendas da farmacêutica dinamarquesa, com preços mensais que frequentemente ultrapassam várias centenas de euros. A expiração das patentes surge num momento delicado para a empresa, que enfrenta crescente concorrência da americana Eli Lilly e de versões não patenteadas já disponíveis em alguns mercados através de canais alternativos.

Nos últimos doze meses, a Novo Nordisk mudou de liderança executiva, anunciou despedimentos e reduziu preços em vários países, numa tentativa de proteger quota de mercado enquanto prepara uma nova geração de medicamentos para a obesidade. Ainda assim, a empresa reconheceu que a entrada dos genéricos irá penalizar as vendas ao longo de 2026.

Acesso alargado e impacto nos países emergentes

Para médicos e doentes em economias emergentes, a chegada dos genéricos é vista como um ponto de viragem. Em países como a Índia, o custo elevado dos tratamentos impediu até agora o acesso de grande parte da classe média. A expectativa é que a redução de preços permita uma adoção em larga escala, num contexto em que as taxas de obesidade continuam a subir de forma sustentada.

De acordo com o ‘El País’, o Canadá será um dos primeiros mercados a fornecer indicadores claros sobre o impacto dos genéricos em sistemas de saúde consolidados, enquanto China e Índia serão observadas como grandes mercados de crescimento, mas também como potenciais polos de produção e exportação.

Lilly ganha terreno enquanto a concorrência se intensifica

A Eli Lilly surge bem posicionada neste novo ciclo. O seu medicamento Mounjaro, comercializado como Zepbound para a obesidade nos Estados Unidos, mantém proteção de patente por mais de uma década e já ultrapassa o Wegovy em vários mercados fora da Europa e da América do Norte. Analistas antecipam que as vendas anuais do Zepbound superem as do Wegovy até 2025.

Ao mesmo tempo, empresas como Roche e AstraZeneca desenvolvem terapias de próxima geração que prometem maior eficácia e melhor perfil de segurança, aumentando a pressão sobre a Novo Nordisk num mercado cada vez mais competitivo.

Gargalos, riscos e desafios regulatórios

A multiplicação de fabricantes de semaglutida está a criar constrangimentos na cadeia de abastecimento, desde o princípio ativo até aos dispositivos de administração. Especialistas alertam ainda para os riscos associados à qualidade, à falsificação e à monitorização de efeitos secundários, sobretudo em mercados onde a regulação é menos robusta.

Embora os genéricos estejam sujeitos a regras mais apertadas, a proliferação de versões e canais de venda levanta dúvidas sobre a capacidade das autoridades de saúde para garantir segurança e rastreabilidade, num setor já marcado por forte pressão comercial e procura muito superior à oferta.

Um mercado em transformação estrutural

A entrada dos genéricos poderá dar origem a um mercado global avaliado em cerca de 7,4 mil milhões de euros anuais até 2030. Para a Novo Nordisk, o desafio passa por defender a liderança através de novos medicamentos, versões orais e estratégias de preços diferenciadas em mercados-chave como Índia, China e Brasil.

Ainda assim, analistas sublinham que o preço continuará a ser o fator decisivo no curto prazo, sobretudo em países onde os tratamentos para perda de peso não são comparticipados e os doentes suportam integralmente os custos. A democratização do acesso à semaglutida poderá, assim, redefinir não apenas o setor farmacêutico, mas também a abordagem global ao tratamento da obesidade.

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