O ouro registou em 2025 o seu melhor desempenho desde a década de 1970, num ano marcado por forte instabilidade geopolítica e económica. O metal precioso atingiu 45 novos máximos históricos e valorizou cerca de 65% ao longo do ano, um ganho que supera largamente o observado no mercado bull dos anos 2000, segundo a análise de James Luke, Senior Portfolio Manager de Ouro e Commodities da Schroders.
De acordo com o especialista, apenas o início e o final da década de 1970 apresentam paralelos históricos comparáveis, quando o colapso do sistema monetário de Bretton Woods, a pressão política sobre a Reserva Federal norte-americana e o choque petrolífero conduziram a uma crise de credibilidade do dólar e a uma forte valorização do ouro.
Apesar das semelhanças com esse período, o contexto atual apresenta diferenças estruturais relevantes. Entre elas destacam-se a fragilidade fiscal dos Estados Unidos — com um rácio dívida/PIB superior a 120%, face a cerca de 35% nos anos 70 —, níveis mais elevados de polarização política e desigualdade económica, o peso económico e financeiro da China e o potencial transformador da inteligência artificial.
Ainda assim, James Luke sublinha que o atual enquadramento reforça a tese do ouro como um ativo “anti-frágil” de longo prazo, deixando de ser apenas uma proteção cíclica sensível às taxas de juro para assumir um papel estrutural nas carteiras de investimento. Na sua perspetiva, o topo deste ciclo apenas será atingido quando os riscos geopolíticos e fiscais forem resolvidos ou quando a procura pelo metal estiver claramente saturada — cenários que considera ainda distantes.
No início de 2026, os sinais continuam a apontar para a persistência destes riscos. A ameaça à independência da Reserva Federal, num contexto de crescente pressão política, bem como o regresso a políticas monetárias expansionistas, reforçam o receio de desvalorização monetária. A compra mensal de títulos do Tesouro e de obrigações hipotecárias é vista como mais um fator de suporte para o ouro.
A China assume um papel central neste ciclo. Apesar de deter apenas cerca de 8% das suas reservas em ouro, a análise indica que Pequim continua fortemente exposta ao dólar e a moedas de países aliados dos EUA. Num contexto de risco de sanções e de perda de credibilidade da dívida norte-americana, este nível é considerado baixo, sugerindo potencial para um aumento significativo da procura chinesa por ouro.
O movimento de valorização não se limitou ao ouro. No final de 2025, a prata e os metais do grupo da platina registaram também fortes subidas, impulsionadas por restrições na oferta. Apesar da maior volatilidade, o potencial de valorização destes metais mantém-se elevado.
Já no mercado acionista, as empresas ligadas ao ouro encerraram 2025 com ganhos históricos. Os principais índices do setor valorizaram entre 150% e 169% ao longo do ano, tornando 2025 um verdadeiro outlier. Ainda assim, as avaliações continuam atrativas: apesar de margens operacionais significativamente mais elevadas do que em ciclos anteriores, as ações do setor permanecem relativamente baratas face ao preço do ouro.
Para os analistas, estes dados reforçam a ideia de que o atual ciclo do ouro ainda tem espaço para continuar, sustentado por fatores estruturais que vão muito além da volatilidade de curto prazo dos mercados.













