Se a tradição da Grécia Antiga fosse hoje respeitada, os disparos de drones e mísseis sobre a Ucrânia cessariam esta sexta-feira, em cumprimento da trégua olímpica que impunha o silêncio das armas durante os Jogos. A uma semana do arranque dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, a ONU e os organizadores renovaram o apelo a uma pausa global nos conflitos armados, um gesto simbólico que volta a confrontar-se com a realidade da guerra, relata a ‘Associated Press’.
A proposta prevê uma suspensão das hostilidades durante sete semanas, começando a 6 de fevereiro, uma semana antes da cerimónia de abertura, e prolongando-se até 15 de março, após o encerramento dos Jogos Paralímpicos. A iniciativa tem o respaldo de uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas e procura reafirmar um padrão moral mínimo num mundo que enfrenta um número recorde de conflitos armados.
Uma tradição ancestral, um apelo contemporâneo
Na Grécia Antiga, a trégua olímpica era respeitada entre cidades-estado em guerra, garantindo viagens seguras para atletas e espectadores rumo a Olímpia, num contexto em que os Jogos tinham profundo significado religioso e cívico.
Os Jogos Olímpicos modernos regressaram em 1896, mas só quase um século depois, em 1994, a trégua voltou a ser formalmente evocada, em plena guerra na antiga Jugoslávia. Segundo a ‘Associated Press’, esse precedente demonstrou que, ainda que limitada, a iniciativa pode ter impacto prático.
Sarajevo, Coreia e o poder simbólico do desporto
Durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Lillehammer, em 1994, a primeira trégua olímpica moderna permitiu uma pausa de um dia no cerco de Sarajevo, viabilizando a entrada de ajuda humanitária com alimentos e medicamentos para a população civil. Anos mais tarde, nos Jogos de Sydney, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul desfilaram juntas na cerimónia de abertura, num gesto simbólico que correu o mundo.
“Mesmo que seja pequeno, devemos esforçar-nos por criar um espaço para a paz”, afirmou à ‘Associated Press’ Constantinos Filis, diretor do Centro Internacional da Trégua Olímpica, defendendo que estas iniciativas continuam a ter valor num contexto de desordem global e polarização política.
Segundo Filis, que dirige também o Instituto de Assuntos Globais em Atenas, a agressão unilateral e o enfraquecimento da cooperação internacional tornam ainda mais relevante a mensagem transmitida pela trégua, mesmo quando não é plenamente cumprida.














