Ordem da Guerra Fria ameaça a NATO: Dinamarca pronta para disparar se tropas americanas pisarem na Gronelândia

Norma estabelece que as forças armadas devem “iniciar imediatamente a luta” contra qualquer agressão em território dinamarquês, sem aguardar instruções formais, mesmo que não exista conhecimento oficial de uma declaração de guerra

Francisco Laranjeira
Janeiro 9, 2026
11:26

Uma diretiva militar dinamarquesa de 1952 determina que os soldados devem abrir fogo imediatamente, mesmo sem ordens superiores, perante qualquer ataque ao território do Reino da Dinamarca, incluindo uma eventual tentativa das forças armadas dos Estados Unidos de tomar a Gronelândia pela força. O Ministério da Defesa da Dinamarca confirmou que a ordem continua em vigor, indicou a ‘Euronews’.

A norma estabelece que as forças armadas devem “iniciar imediatamente a luta” contra qualquer agressão em território dinamarquês, sem aguardar instruções formais, mesmo que não exista conhecimento oficial de uma declaração de guerra. A confirmação foi dada pelo Comando e pelo Ministério da Defesa ao jornal dinamarquês ‘Berlingske’.

A diretiva voltou ao centro do debate político e militar depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter reiterado a possibilidade de assumir o controlo da Gronelândia, se necessário pela força, classificando o território ártico como vital para a segurança nacional americana.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, foi clara ao reagir a esse cenário. Segundo afirmou esta semana, uma tentativa militar de tomar a Gronelândia — território autónomo integrado no Reino da Dinamarca — representaria o colapso da NATO. “Se os Estados Unidos decidirem atacar militarmente outro país da Aliança, então tudo acaba”, declarou à estação TV2, sublinhando que estaria em causa a própria arquitetura de segurança construída desde o fim da II Guerra Mundial.

Uma ordem moldada pela experiência da II Guerra Mundial

A diretiva, oficialmente publicada a 6 de março de 1952 sob o título “Disposições sobre uma ordem cautelar para os militares de defesa contra ataques ao campo e durante a guerra”, foi elaborada no contexto do pós-guerra. Resulta diretamente da experiência da invasão alemã da Dinamarca em abril de 1940, quando falhas graves nas comunicações deixaram muitas unidades militares sem orientação clara sobre como reagir.

O documento determina que, se as forças de defesa não estiverem totalmente mobilizadas antes de um ataque, qualquer agressão vinda do exterior — ou ocorrida em território dinamarquês — deve ser considerada automaticamente como uma ordem de mobilização. A regra é explícita ao afirmar que a resposta deve ocorrer sem hesitação e sem necessidade de comandos específicos, prevendo mesmo que “a luta deve continuar, ainda que o inimigo ameace com represálias”.

Papel do Comando do Ártico e rejeição de Copenhaga e Nuuk

Na Gronelândia, cabe ao Comando do Ártico, autoridade militar dinamarquesa no território, avaliar se uma determinada situação configura um ataque armado, de acordo com os procedimentos em vigor. O Ministério da Defesa confirmou que a diretiva permanece plenamente válida, numa resposta oficial ao Berlingske.

Tanto o governo dinamarquês como o executivo da Gronelândia rejeitam as propostas de Trump para comprar ou tomar a ilha. O território, onde vivem cerca de 56 mil pessoas, maioritariamente Inuit, tem cerca de 80% da sua superfície situada a norte do Círculo Polar Ártico e assume crescente relevância estratégica num contexto de competição geopolítica e degelo acelerado.

Reunião com os EUA em preparação

Apesar da tensão, a Dinamarca confirmou a realização de uma reunião de alto nível com os Estados Unidos na próxima semana para discutir a situação. O ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, afirmou que se trata do “diálogo necessário”, solicitado em conjunto com o governo da Gronelândia.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, confirmou o encontro, sem avançar detalhes sobre o local ou os participantes. O governo gronelandês já fez saber que estará presente. “Não há nada sobre a Gronelândia sem a Gronelândia”, afirmou a ministra dos Negócios Estrangeiros do território, Vivian Motzfeldt, sublinhando que a reunião foi solicitada pelo próprio executivo de Nuuk.

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