Catherine Connolly, de 68 anos, está prestes a escrever história na Irlanda. Caso as previsões se confirmem, assumirá a presidência do país a partir deste sábado, tornando-se a primeira presidente independente a obter o apoio unificado de toda a esquerda, que inclui o Sinn Féin, sociais-democratas, trabalhistas, o People Before Profit, o Partido Verde e outros independentes de esquerda.
A candidatura de Connolly, lembrou a publicação ‘HuffPost’, destaca-se não apenas pelo consenso político, mas também pelas posições assumidas: crítica ao aumento dos gastos militares na Europa em detrimento da assistência social, defensora da neutralidade irlandesa, e uma voz firme contra o que descreve como “genocídio de Israel na Palestina”. A política independente também critica Donald Trump, a quem considera um “bandido”, e conta com o apoio do trio de rap norte-irlandês Kneecap.
Na Irlanda, o cargo presidencial é sobretudo simbólico e comparável ao papel de uma monarquia constitucional, sendo eleito de sete em sete anos. O presidente atua como chefe de Estado, enquanto o Governo, liderado pelo ‘taoiseach’ [expressão gaélica para ‘chefe’], detém o poder executivo. Ainda assim, a figura presidencial pode influenciar a agenda política e social, como ocorreu após a eleição de Mary Robinson, em 1990, cujas posições progressistas ajudaram a reforçar o Partido Trabalhista nas legislativas seguintes.
Connolly, atualmente membro do Parlamento Irlandês, concorre como independente, tendo abandonado o Partido Trabalhista em 2006 por considerar que “tinha perdido a alma”. Apesar da ausência de filiação partidária, a sua candidatura conseguiu unir a esquerda, um feito sem precedentes desde a independência do país.
A campanha de Connolly também tem enfrentado desafios, incluindo a viralização de um vídeo falso nos dias que antecederam a votação, em que alegadamente anunciava a sua retirada. A candidata denunciou a manipulação e apelou aos eleitores: “A melhor resposta às mentiras é votar.”
A futura presidente defende a reunificação da Irlanda e reforça a neutralidade do país em assuntos internacionais. “Não temos nada a ganhar juntando-nos às grandes potências. Precisamos de manter a credibilidade como Estado neutro para poder dizer a verdade aos poderosos, seja sobre a invasão russa da Ucrânia ou sobre Israel”, declarou, em entrevista recente.
As suas posições provocaram críticas do establishment político irlandês e preocupação em círculos diplomáticos, como indicou o jornal ‘POLITICO’. Veteranos do serviço diplomático alertaram que uma presidência de Connolly poderia “confundir o mundo sobre as verdadeiras posições do Governo irlandês”, especialmente devido à dependência económica do país de multinacionais americanas e à relação com a União Europeia. Connolly, contudo, distingue claramente entre líderes e cidadãos, sublinhando que as suas críticas se dirigem aos Governos, não aos povos.
Apesar da idade, Connolly conquistou um significativo apoio entre os jovens, reforçado pelo uso eficaz das redes sociais. Em vídeos virais, é vista a praticar desporto com crianças, fortalecendo a sua imagem de proximidade e dinamismo num contexto europeu marcado pelo crescimento da extrema-direita.














