Em 2024, Portugal desperdiçou eletricidade suficiente para abastecer 60 mil casas. Como inverter este caminho?

Opinião de Tiago Santos, CEO da Enlitia

Executive Digest
Maio 27, 2025
12:35

Por Tiago Santos, CEO da Enlitia

Sabia que Portugal desperdiçou, só em 2024, mais de 200 GWh de energia renovável — o suficiente para abastecer cerca de 60 mil habitações durante um ano inteiro? O número impressiona, mas raramente é discutido fora dos círculos técnicos. Este fenómeno tem um nome: curtailment. E representa um dos maiores desafios — e tabus — da transição energética.

Nos últimos anos, Portugal tem sido palco de um crescimento notável das energias renováveis, impulsionado por metas ambiciosas de descarbonização e pela redução significativa dos custos das tecnologias solar e eólica. No entanto, esse progresso enfrenta um obstáculo estrutural: a energia que é gerada… mas não chega a ser utilizada.

Curtailment ocorre quando a produção de energia renovável excede, num determinado momento, a capacidade da rede elétrica para a distribuir ou armazenar, ou quando a procura não consegue acompanhar o ritmo da geração. Situações como esta tornam-se cada vez mais frequentes, sobretudo em dias de muito vento ou sol.

Em países como a Alemanha, onde o norte produz grandes volumes de energia eólica que não conseguem ser escoados para os grandes centros de consumo no sul, o problema atinge proporções alarmantes. Em Portugal, os mais de 200 GWh desperdiçados em 2024 representam um crescimento significativo face a anos anteriores, revelando limitações técnicas da rede que colocam em causa a eficiência do sistema.

Como sublinha a APREN — Associação Portuguesa de Energias Renováveis —, “não basta aumentar a capacidade instalada; é essencial garantir que cada quilowatt-hora gerado seja eficazmente aproveitado.”

O impacto é muito mais do que técnico

As consequências do curtailment vão além do desperdício de energia limpa. Os produtores perdem receitas por não conseguirem escoar toda a eletricidade gerada, os investidores enfrentam menor retorno e maior risco, e os consumidores acabam por não beneficiar plenamente da abundância renovável.

A própria transição energética desacelera: sem uma utilização eficiente da energia renovável já disponível, cresce o ceticismo em torno da viabilidade dos investimentos e da sustentabilidade do modelo.

Causas estruturais

As origens do curtailment são diversas:

· Infraestruturas elétricas que não acompanharam o crescimento da produção renovável;

· Ausência de flexibilidade na procura, com consumo desfasado dos momentos de maior produção;

· Falta de incentivos ao armazenamento e à redistribuição inteligente da energia;

· Previsões meteorológicas e de consumo com baixa precisão, dificultando a gestão em tempo real.

De entrave a oportunidade estratégica

A boa notícia? O curtailment pode ser reduzido drasticamente — e até transformado numa vantagem competitiva — se Portugal souber aprender com os bons exemplos internacionais.

A Dinamarca, por exemplo, conseguiu minimizar as perdas energéticas através de:

· Adoção de baterias e produção de hidrogénio verde para armazenar o excesso de energia;

· Tarifas dinâmicas e incentivos ao consumo flexível, alinhando consumo e produção;

· Redes inteligentes e interligações elétricas robustas com países vizinhos;

· E, cada vez mais, modelos de previsão avançados baseados em Inteligência Artificial, como os desenvolvidos pela Enlitia.

Além disso, reformas regulatórias são urgentes para permitir que soluções de flexibilidade e armazenamento participem eficazmente no mercado, ajudando a reduzir desperdícios e a maximizar o valor da energia limpa.

Uma questão de visão nacional

Como afirmou João Peças Lopes, investigador do INESC TEC, “resolver o curtailment não é apenas uma obrigação técnica, é uma necessidade estratégica nacional”.

Portugal tem metas ambiciosas para a neutralidade carbónica em 2050. Mas para lá chegar, cada watt de energia renovável precisa de ser usado de forma inteligente. Está na altura de decisores políticos, operadores de rede, reguladores e empresas trabalharem em conjunto para transformar o curtailment — de um problema silencioso — num catalisador da eficiência energética nacional.

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