Operação Marquês: José Sócrates devia 11 mil euros a agência de viagens após férias de luxo. Dívida nunca foi cobrada

Emanuel Carraça, agente de viagens da empresa lesada, lembrou que a “dívida nunca chegou a ser cobrada”, embora sem explicar o motivo: se o processo foi suspenso, ou seja, se o credor deixou de cobrar o montante, ou se a dívida acabou por não ser executada

Revista de Imprensa
Outubro 15, 2025
10:12

José Sócrates tinha uma dívida de 11 mil euros à agência de viagens Top Atlântico, revelou esta quarta-feira o ‘Correio da Manhã’, apesar dos milhares de euros gastos pelo antigo primeiro-ministro em férias de luxo: a informação foi avançada por uma testemunha no julgamento da Operação Marquês.

Emanuel Carraça, agente de viagens da empresa lesada, lembrou que a “dívida nunca chegou a ser cobrada”, embora sem explicar o motivo: se o processo foi suspenso, ou seja, se o credor deixou de cobrar o montante, ou se a dívida acabou por não ser executada.

Recorde-se que José Sócrates já garantiu, numa sessão do julgamento em julho último, que, em meados de 2012, a mãe lhe deu 450 mil euros da venda de uma casa, porque sabia que não tinha rendimentos desde que saíra do Governo, um ano antes.

O chefe de Governo de março de 2005 a junho de 2011 respondeu assim a perguntas de enquadramento do procurador Rómulo Mateus sobre a sua situação pessoal e profissional entre deixar de ser primeiro-ministro e o seu início de funções na empresa Octapharma, em fevereiro de 2013, com uma remuneração inicial mensal de cerca de 12.500 euros.

“Quando saí do Governo, a primeira coisa que fiz foi pedir um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos. Pedi 150 mil euros para ir viver para Paris [França] e estar um ano sem trabalhar”, começou por explicar, precisando que a mudança, na qual o filho mais velho o acompanhou, se destinou a frequentar um mestrado em Teoria Política.

O dinheiro terá dado para viver “durante um ano”, até que, “no final do ano letivo de 2012”, a mãe decidiu vender o apartamento em que vivia no centro de Lisboa e mudar-se para uma outra casa que tinha em Cascais.

Segundo José Sócrates, o imóvel foi vendido por 600.000 euros a Carlos Santos Silva, “que se dedicava a isso”, empresário e considerado um dos testas-de-ferro do ex-governante.

Deste montante, 450.000 euros foram, afirmou, entregues pela mãe ao antigo chefe de Governo, porque não tinha rendimentos.

“De onde é que veio o dinheiro para viver? Da venda da casa da minha mãe. Porque o meu irmão tinha acabado de falecer e ela estava zangada com a família do meu irmão”, explicou comovido, José Sócrates, salientando que vai provar que, na década de 1980, a progenitora herdara uma fortuna de “um milhão de contos” (cinco milhões de euros).

O antigo primeiro-ministro, de 67 anos, está pronunciado (acusado após instrução) de 22 crimes, incluindo três de corrupção, por ter, alegadamente, recebido através de testas-de-ferro dinheiro para beneficiar em dossiês distintos o grupo Lena – para o qual Carlos Santos Silva trabalhava -, o Grupo Espírito Santo (GES) e o empreendimento Vale do Lobo, no Algarve.

O processo conta, no total, com 21 arguidos, que respondem globalmente por 117 crimes económico-financeiros.

O julgamento começou em 3 de julho no Tribunal Central Criminal de Lisboa e prossegue a 2 de setembro, com a continuação do interrogatório a José Sócrates.

Os arguidos têm, em geral, negado a prática de qualquer ilícito.

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