Na noite desta terça para quarta-feira, um fenómeno anual volta a captar a atenção dos amantes da astronomia e curiosos do céu: as Perseidas, popularmente conhecidas como estrelas cadentes, regressam para oferecer um espetáculo luminoso. Apesar de o fenómeno prolongar-se desde o final de julho até meados de agosto, é precisamente nesta madrugada que se espera o seu pico máximo, tornando este o momento ideal para a sua observação, sobretudo após a meia-noite.
Máximo Ferreira, astrónomo e diretor do Centro Ciência Viva de Constância – Parque de Astronomia, prefere designar este fenómeno como um “chuvisco de meteoros”. No entanto, admite ao Público que a expressão “estrelas cadentes” carrega um charme especial, resultado de milénios de observação humana: “Terá sido criada e evoluído desde há milhares de anos, quando as pessoas olhavam para o céu e achavam que tudo aquilo estava fixo e, de repente, havia um traço luminoso que seria uma estrela a cair ou a mudar de sítio.”
Do ponto de vista científico, um meteoro — ou estrela cadente — corresponde a um fragmento de rocha espacial, pedra interestelar ou detritos cósmicos que, ao entrar na atmosfera terrestre, se aquece e incendeia, deixando um rasto luminoso visível.
Quanto à designação “chuva”, Máximo Ferreira explica que esta implica a observação de uma grande quantidade de meteoros em simultâneo. Por isso, prefere chamar-lhe “chuvisco”, porque “se pudéssemos olhar para todas as regiões do céu ao mesmo tempo e observar todos os meteoros, as estimativas indicam que poderíamos ver cerca de cem estrelas cadentes por hora. Mas isso é impossível porque, ao observarmos uma parte do céu, a outra fica atrás de nós.”
Para quem pretende maximizar a observação, o astrónomo sugere uma tática simples: reunir um grupo de amigos e, deitados de barriga para cima, repartir-se pelo céu como um “girassol no chão”, onde cada um observe uma secção diferente e depois partilhe as contagens dos traços luminosos vistos.
O fenómeno das Perseidas está ligado ao cometa Swift-Tuttle, descoberto em 1862 pelos astrónomos norte-americanos Lewis Swift e Horace Parnell Tuttle. Este cometa passa próximo da órbita da Terra a cada 133 anos, tendo sido a última aproximação em 1992, com previsão de retorno para daqui a cem anos.
Durante a sua órbita anual, a Terra atravessa uma zona do espaço onde permanecem os detritos e poeiras deixados pelo cometa. Quando estas partículas entram em contacto com a atmosfera, queimam-se e formam os meteoros que conhecemos como estrelas cadentes.
O nome “Perseidas” deve-se ao facto destes meteoros parecerem irradiar da constelação de Perseu, localizada no hemisfério Norte. Máximo Ferreira ilustra este fenómeno comparando-o a um guarda-chuva aberto, onde a haste aponta para Perseu e as “varetas” do guarda-chuva seriam os traços luminosos que se espalham no céu.
O momento ideal para observar esta “chuva” é após a meia-noite, quando a constelação de Perseu está mais alta no céu, aumentando a visibilidade dos meteoros.
Este ano, a observação das Perseidas na madrugada de terça para quarta-feira enfrenta um desafio: a presença do luar. Máximo Ferreira alerta que a “Lua vai estar a produzir muito luar” e pode “apagar os meteoros mais fracos”, dificultando a sua visualização.
Ricardo Reis, do grupo de comunicação científica do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, corrobora esta preocupação. Normalmente, em noites escuras, o pico das Perseidas pode apresentar até cem meteoros por hora. Contudo, com a lua cheia a ocorrer no dia 9 de agosto, na madrugada de 12 para 13 a Lua estará em fase minguante, iluminando cerca de 80% do seu disco, o que irá “afetar bastante a observação”.
Segundo Ricardo Reis, o céu só ficará completamente escuro por volta das 21h30, com a Lua a nascer perto de Saturno por volta das 22h30, a aproximadamente 60 graus da região do céu onde se localiza o “radiante” das Perseidas, ou seja, o ponto de onde parecem originar-se. Essa distância equivale a cerca de três palmos estendidos no braço, tornando provável que o número de meteoros visíveis se reduza para metade, cerca de 50 por hora, em locais com pouca poluição luminosa. Em ambientes urbanos, onde a poluição é maior, a visibilidade cai para entre cinco a dez meteoros por hora.














