Olho por olho? Europa estuda travão à expansão chinesa no setor automóvel europeu

Durante décadas, a indústria automóvel chinesa cresceu apoiada na transferência de tecnologia ocidental, num modelo que obrigou fabricantes estrangeiros a associarem-se a marcas locais para poderem operar no país

Automonitor
Janeiro 23, 2026
17:00

Durante décadas, a indústria automóvel chinesa cresceu apoiada na transferência de tecnologia ocidental, num modelo que obrigou fabricantes estrangeiros a associarem-se a marcas locais para poderem operar no país. Agora, a União Europeia estuda uma resposta semelhante, ponderando impor joint ventures obrigatórias às marcas chinesas que queiram investir em grande escala no espaço europeu, segundo o ‘L’Automobile Magazine’.

A estratégia chinesa assentou, desde o final da década de 1970, numa legislação que limitava importações e forçava a partilha de conhecimento técnico. Apesar das tarifas alfandegárias elevadas, a China continuava dependente de veículos importados, levando Pequim a criar a Lei das Joint Ventures, que impunha parcerias com fabricantes chineses e transferência tecnológica como condição de acesso ao mercado.

O resultado foi uma transformação profunda do setor. Em 1985, a China produzia pouco mais de 5.000 automóveis por ano num país com cerca de mil milhões de habitantes. Hoje, é o maior mercado automóvel do mundo, com mais de 20 milhões de vendas anuais, apoiado numa abundância excecional de matérias-primas e numa exploração intensiva de recursos naturais ao longo de 40 anos.

Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, muitos responsáveis europeus consideram que este modelo dificilmente poderá ser replicado integralmente noutros continentes, mas defendem que a Europa não deve permitir que os fabricantes chineses se instalem sem contrapartidas. A perceção dominante é a de que a indústria europeia foi, durante anos, explorada através de parcerias assimétricas.

“Durante anos, a China exigiu que todas as futuras melhorias tecnológicas também pertencessem à empresa chinesa que integrava a joint venture”, afirmou David Boitout, advogado do escritório Gide Loyrette Nouel na China, citado na análise. Essa exigência terá contribuído para a diluição de conhecimento estratégico europeu e para a rápida ascensão tecnológica dos construtores chineses, hoje capazes de competir em todos os segmentos, do citadino ao elétrico de alto desempenho.

Bruxelas trabalha agora numa secção específica do chamado pacote automóvel europeu, que inclui o princípio da “preferência europeia”. A proposta, ainda não oficialmente apresentada, prevê que fabricantes chineses com projetos superiores a 100 milhões de euros sejam obrigados a estabelecer parcerias com marcas europeias, com uma repartição de capital de 51% para o parceiro europeu e 49% para o chinês, incluindo transferência de tecnologia.

O anúncio deste plano, inicialmente previsto para janeiro, foi adiado para o final de fevereiro devido a divergências entre os Estados-membros. A França tem sido uma das vozes mais exigentes, defendendo uma preferência europeia clara para os veículos elétricos, com pelo menos 75% de componentes produzidos na Europa.

Há poucos dias, o Ministério dos Transportes francês manifestou confiança de que esta exigência será integrada no texto final da Comissão Europeia. O vice-presidente europeu responsável pela Indústria tem, por sua vez, chamado a atenção para a elevada proporção de trabalhadores chineses em algumas fábricas recentemente instaladas na União Europeia, reforçando a necessidade de regras mais restritivas.

A discussão promete marcar o futuro da relação industrial entre a Europa e a China, num setor estratégico onde a transferência de tecnologia volta a estar no centro do debate.

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