O que resta do 6 de Janeiro? Cinco anos depois do ataque ao Capitólio que ainda divide os EUA

Cinco anos depois da invasão do Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, os danos físicos causados pelo ataque foram reparados e o maior processo criminal da história dos Estados Unidos foi formalmente encerrado. Ainda assim, o episódio continua a marcar profundamente a política americana

Francisco Laranjeira
Janeiro 6, 2026
7:15

Cinco anos depois da invasão do Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, os danos físicos causados pelo ataque foram reparados e o maior processo criminal da história dos Estados Unidos foi formalmente encerrado. Ainda assim, o episódio continua a marcar profundamente a política americana, com uma disputa aberta sobre a memória, a interpretação e as consequências do motim que interrompeu a certificação da vitória eleitoral de Joe Biden.

De acordo com a ‘CBS News’, o assalto ao Capitólio desencadeou uma vaga sem precedentes de investigações judiciais, com cerca de 1.583 pessoas acusadas a nível federal por crimes que incluíram intrusão, agressões a agentes da autoridade, uso de armas perigosas e conspirações organizadas. Até ao início de 2025, tinham sido registadas cerca de 1.270 condenações, muitas delas resultantes de confissões de culpa, e mais de 700 penas de prisão efetiva.

O ponto de viragem: os indultos de Trump

O processo judicial sofreu uma reviravolta a 20 de janeiro de 2025, no primeiro dia do regresso de Donald Trump à Casa Branca. O presidente assinou uma proclamação de clemência que determinou o perdão imediato de mais de 1.500 arguidos ligados ao 6 de Janeiro, incluindo figuras condenadas por crimes violentos e por liderança em grupos extremistas.

Na prática, a esmagadora maioria dos processos criminais foi arquivada ou extinta, com libertações imediatas em várias prisões federais. Trump justificou os indultos alegando que muitos dos arguidos eram “absolutamente inocentes” ou responsáveis apenas por infrações menores, apesar de os registos judiciais indicarem um histórico de condenações em 100% dos julgamentos com júri realizados.

Violência documentada e feridos entre a polícia

As autoridades judiciais e policiais sustentam que o ataque foi tudo menos pacífico. Cerca de 140 agentes ficaram feridos durante os confrontos, alguns com fraturas graves, lesões cerebrais e danos na coluna vertebral. Os autos judiciais descrevem agressões com bastões, sprays químicos, postes metálicos e outros objetos improvisados.

Dan Hodges, agente da polícia de Washington ferido durante o ataque, afirmou à ‘CBS News’ que assiste com frustração a uma “reescrita contínua” dos acontecimentos. Para o agente, o 6 de Janeiro foi “um dos crimes mais documentados em vídeo da história americana” e negar o que aconteceu representa um risco para a democracia.

A batalha pela narrativa do 6 de Janeiro

Desde o regresso ao poder, Trump tem minimizado o ataque, descrevendo-o como um “dia de amor” e acusando a administração Biden de ter usado o Departamento de Justiça como arma política. O presidente e aliados têm também promovido alegações não comprovadas, incluindo a presença encoberta de agentes do FBI entre os manifestantes, versões que foram rejeitadas por responsáveis das forças de segurança.

Em resposta, os democratas no Congresso anunciaram novas audições públicas com testemunhos de polícias e especialistas, com o objetivo de reafirmar os factos do ataque. Hakeem Jeffries, líder democrata na Câmara dos Representantes, alertou para o risco de apagamento histórico e para as ameaças contínuas à segurança pública associadas à libertação de arguidos violentos.

Manifestações, memória e riscos futuros

O quinto aniversário do ataque será também assinalado com uma marcha em Washington promovida por antigos arguidos, incluindo o ex-líder dos Proud Boys, Enrique Tarrio, condenado por conspiração sediciosa antes de ser perdoado. A manifestação seguirá o mesmo percurso de 2021, entre o Ellipse e o Capitólio, coincidindo com audições parlamentares sobre o tema.

Para analistas e legisladores, a persistência de narrativas contraditórias em torno do 6 de Janeiro revela que, apesar de a democracia americana ter resistido naquele dia, a disputa sobre o seu significado permanece aberta. Como resumiu a senadora Amy Klobuchar, citada pela ‘CBS News’, “o Congresso fez o seu trabalho e a democracia prevaleceu”, mas as feridas políticas do ataque continuam longe de sarar.

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