O paradoxo português: ser jovem em Portugal!

Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest
Fevereiro 1, 2022
10:30

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Em 2020, cerca de 70% dos emigrantes permanentes (que não pretendem voltar para Portugal) tinham até 34 anos e pouco mais de 50% dos emigrantes temporários tinham a mesma idade, segundo o INE. Apesar do número de emigrantes portugueses nestes dois últimos anos ter sido o mais baixo dos últimos 20 anos, segundo o observatório da emigração do ISCTE. Este relatório indica que, de 80 mil saídas em 2019, esse número baixou para 45 mil em 2020 e (segundo outros dados) 48 mil estimados em 2021.  Mas esta quebra não foi uma decisão dos jovens, pois o desejo de sair foi mitigado pela incerteza gerada pela crise pandémica de covid-19 e a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit). Ou seja os jovens já só saem com propostas certas de emprego e não arriscam. E quando avaliamos as causas desta redução da emigração, para além dos factores externos, concluímos que a taxa de desemprego está muito baixa (corrigida de sazonalidade segundo o INE em novembro/21) em 6.3% da população activa. Porque apesar da actividade económica ter caído a pique, o lay-off simplificado ajudou a manter muitos dos postos de trabalho. Manutenção que com a retoma da actividade, fez baixar a taxa de desemprego para níveis pré-pandemia, como se vê. Mas a taxa de desemprego dos mais jovens (dos 15 aos 24 anos) atinge 22.4%. Ou seja 4 vezes mais que a taxa global de desemprego. Portanto a baixa taxa de desemprego global em Portugal, não é um factor de redução da emigração jovem. Agravado pelo facto de serem uma geração de baixos salários: quase três em cada quatro jovens (72%) recebem menos de 950 euros líquidos por mês, sendo que apenas uma minoria (19%) vive bem com o que ganha (estudo “Os jovens em Portugal, hoje”). Têm ainda contratos de trabalhos instáveis e já passaram por 4 ou 5 empregos precários. Em conclusão, “este país não é para jovens”!

Este é um paradoxo Português: sobrequalificação dos jovens num país que precisa de talento mas desperdiça-o. E este problema geracional do desemprego, da precariedade laboral, dos baixos salários, da dificuldade em encontrar e manter habitação própria, de constituir família e ter filhos, são os problemas que o estado mas também a sociedade e os empresários têm de resolver. Talvez este seja mesmo um dos maiores desafios dos próximos anos, como “aproveitar e potenciar” o bem mais precioso de um país?

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