Por Mariana Banazol, Diretora Associada de Marketing de Espanha e Portugal da Too Good To Go
Os efeitos das alterações climáticas deixaram de ser uma previsão distante para se tornarem um fator concreto na economia alimentar global. Fenómenos meteorológicos extremos comprometem colheitas e encarecem a produção agrícola. Em Portugal, este cenário expõe um paradoxo econômico difícil de ignorar: enquanto os consumidores enfrentam dificuldades crescentes para adquirir produtos básicos, simultaneamente uma quantidade significativa de comida acaba por ser desperdiçada.
Entre 2022 e 2024, secas prolongadas e inundações afetaram a produção agrícola global, provocando aumentos de preços de até 300% em produtos essenciais, como cereais, frutas e vegetais. Esta realidade reflete-se diretamente no orçamento das famílias, que veem os custos da alimentação disparar e têm de fazer escolhas cada vez mais restritivas.
É aqui que o paradoxo se torna evidente: mesmo com preços mais altos, continuamos a desperdiçar. E quanto mais desperdiçamos, maior é a pressão sobre a oferta e sobre os preços. Em Portugal, estudos mostram que no verão, precisamente quando frutas e vegetais estão mais caros, o consumo desregrado e as condições sazonais levam a que muitos desses produtos acabem por não ser aproveitados. Desperdiçar comida já produzida significa não só perder dinheiro, mas também desperdiçar recursos como água, energia e solo fértil, além de agravar as emissões de CO₂ associadas à sua produção e transporte.
Esta ineficiência alimenta o ciclo da inflação: menos alimentos aproveitados implicam uma maior procura para repor perdas, o que mantém os preços elevados. Ao mesmo tempo, o impacto social agrava-se, pois, muitas famílias deixam de ter acesso regular a produtos frescos e nutritivos, aprofundando desigualdades.
É precisamente aqui que soluções como a aplicação Too Good To Go demonstram o seu valor. Ao salvar excedentes de restaurantes, mercearias e retalhistas a preços reduzidos, os consumidores não só evitam que alimentos bons sejam desperdiçados, como conseguem poupar em média até 620 euros por ano — um alívio concreto em tempos de inflação. Cada refeição salva representa simultaneamente menos desperdício, mais poupança e menor pressão sobre os preços.
Combater o desperdício alimentar não é apenas um imperativo ambiental ou ético, é também uma escolha racional do ponto de vista económico. Menos perdas significam maior eficiência, mais resiliência do sistema alimentar e, sobretudo, mais poder de compra para as famílias.
O futuro da alimentação dependerá da nossa capacidade de agir em duas frentes: mitigar os impactos das alterações climáticas na produção e travar o desperdício que os amplifica. Se cada um fizer a sua parte, estaremos não só a proteger o planeta, mas também a construir uma economia alimentar mais justa e sustentável.




