A NATO está cada vez mais próxima de concretizar uma ideia debatida há vários anos nos bastidores da Aliança: a criação de um banco multilateral dedicado exclusivamente ao financiamento de projetos de defesa, segurança e resiliência. O objetivo é simples, mas ambicioso — garantir crédito barato e estável aos Estados-membros e às empresas do setor militar, contornando as barreiras financeiras e reputacionais que hoje dificultam o investimento nesta área estratégica.
Segundo o El Confidencial, a nova instituição, batizada de Banco para a Defesa, Segurança e Resiliência (DSRB), deverá funcionar como um prestamista internacional com notação máxima de crédito, permitindo captar capital a custos reduzidos nos mercados e emprestá-lo aos aliados em condições mais vantajosas do que as que muitos países conseguem obter individualmente.
Qualquer banco que opere com projetos militares enfrenta atualmente obstáculos significativos. Entre eles contam-se os critérios ASG — ambientais, sociais e de governação — adotados por grande parte do setor financeiro, bem como os riscos reputacionais associados ao financiamento de equipamentos que possam ser usados em conflitos com elevado número de vítimas civis, como no Iémen ou em Gaza.
Este contexto tornou o investimento em material militar impopular junto de parte da opinião pública. Na prática, isso traduz-se em dificuldades acrescidas para pequenas e médias empresas da indústria da defesa, que frequentemente não conseguem aceder a crédito em condições sustentáveis.
Vários especialistas consideram que este bloqueio financeiro está a atrasar o rearmamento europeu. A NATO entende que, sem resolver o problema do financiamento, os objetivos orçamentais — atualmente 2% do PIB e com meta de 5% até 2035 — podem não ter impacto real nas capacidades militares.
Uma ideia concebida antes da guerra na Ucrânia
O conceito do chamado “Banco da NATO” foi apresentado em 2019 por Rob Murray, antigo responsável pela inovação da Aliança. Anos mais tarde, desenvolveu a proposta num relatório detalhado, defendendo que o desinteresse político e social pelo investimento militar fragilizava a coesão da organização.
No documento, Murray alertava que “a falta de investimento em defesa, segurança e resiliência por parte de um número significativo de nações aliadas, que não atingem o objetivo mínimo de 2% do PIB da NATO, ou que simplesmente são incapazes de financiar capacidades de defesa credíveis, cria desunião política e limitações práticas no cumprimento dos compromissos de defesa coletiva”.
A solução proposta passaria por uma nova instituição financeira internacional: “Os problemas recorrentes de financiamento da NATO poderiam ser resolvidos com uma nova instituição financeira de governação internacional: o Banco de Defesa, Segurança e Resiliência (DSRB)”, escreveu.
O projeto avançou formalmente em março de 2025, com Murray como fundador.
115 mil milhões de euros para defesa e cadeias de abastecimento
O DSRB pretende mobilizar 100 mil milhões de libras — cerca de 115 mil milhões de euros — para financiar projetos militares nos países aliados. O capital serviria não apenas para a aquisição de equipamento pesado, como caças F-16, mas também para estabilizar cadeias de abastecimento e apoiar PME do setor, frequentemente excluídas do financiamento tradicional.
Grandes instituições financeiras internacionais já manifestaram apoio, incluindo JP Morgan Chase, ING Group, Commerzbank e RBC Capital Markets.
O modelo financeiro prevê captar fundos a cerca de 2,9% e emprestá-los aos Estados a 3,0%, um custo significativamente inferior ao de muitos mercados soberanos. O relatório apresenta um exemplo concreto: se a Polónia recorresse ao banco para comprar F-16, pagando 3%, os juros totais cairiam para cerca de 1.780 milhões de dólares, o que representaria uma poupança aproximada de mil milhões apenas em encargos financeiros.
Interoperabilidade militar e “dissuasão financeira”
Entre as vantagens anunciadas, o banco destaca a possibilidade de promover maior interoperabilidade entre forças armadas aliadas. A instituição poderia exigir compatibilidade técnica entre sistemas como condição para conceder empréstimos, incentivando a harmonização militar.
Outra proposta inovadora é a chamada “dissuasão do mercado de capitais”: ao emitir obrigações de defesa nos mercados internacionais, investidores de países rivais poderiam, indiretamente, financiar a segurança dos próprios adversários, criando laços financeiros que reduziriam incentivos ao conflito.
Resistências políticas e recuo britânico
Apesar do entusiasmo de alguns promotores, o projeto não reúne consenso. Vários governos receiam que um banco multilateral interfira nas decisões soberanas de aquisição de material militar.
O Reino Unido afastou-se publicamente da iniciativa. Num comunicado citado pela Reuters, o Ministério das Finanças britânico afirmou que “as propostas do DSRB não estão apoiadas pelo governo britânico” e que “o Reino Unido não tem planos de aderir a esta iniciativa”.
O anúncio ocorreu pouco antes de uma reunião em Londres com 41 países da União Europeia, da NATO e da região indo-pacífica para discutir o financiamento da nova entidade, abalando a confiança no projeto. Fontes governamentais indicam que Londres duvida da eficiência e do valor real do modelo proposto.
A ausência britânica representa um revés significativo, dado o peso financeiro esperado do país.
Canadá tenta assumir liderança
Enquanto Londres se afasta, o Canadá procura ocupar o espaço deixado vago. O país candidata-se a acolher a sede do banco, em Toronto ou Ottawa, o que poderá gerar até 3.500 empregos qualificados nas áreas financeira e tecnológica.
Rick Hillier, antigo chefe do Estado-Maior da Defesa canadiano, considera que os fundos poderiam inclusive ajudar a “resolver a situação precária da habitação do pessoal das Forças Armadas em bases negligenciadas”.
Kevin Reed, presidente do grupo de desenvolvimento do DSRB, defende que “este é o momento do Canadá para liderar na NATO e com os nossos aliados nas finanças de defesa”, sublinhando que os canadianos “são conhecidos pela sua prudência financeira”. Para Reed, “o momento para este banco é agora”.
O contexto geopolítico também pesa: a perceção de ameaças na fronteira sul e a necessidade de reforçar laços transatlânticos aumentaram o interesse de Otava em fortalecer as suas capacidades de defesa.
A grande incógnita é saber se a ausência de potências-chave, como o Reino Unido, e as dúvidas sobre a fiabilidade estratégica dos Estados Unidos poderão limitar o impacto do DSRB.
Apesar das resistências, o calendário mantém-se. A instituição deverá estar plenamente operacional entre o final de 2026 e o início de 2027.
Do lado oposto, a desconfiança é evidente. No final de janeiro, o jornal russo Izvestia afirmava que “a NATO está a criar um banco para se preparar para a guerra com a Rússia”. Se alguns aliados hesitam, os adversários parecem levar o projeto muito a sério.














