Portugal registou em 2024 o número mais baixo de touradas de que há registo, reforçando a tendência de decréscimo verificada no ano anterior. De acordo com o Relatório da Atividade Tauromáquica de 2024, da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC), realizaram-se apenas 143 espetáculos tauromáquicos — o valor mais reduzido desde que há registo, com exceção de 2020, ano atípico devido à pandemia. Paralelamente, as vendas de bilhetes diminuíram, assim como o número de espectadores nas bancadas.
Segundo o Público, que cita dados da IGAC e do Instituto Nacional de Estatística (INE), o único indicador a subir foi o dos bilhetes oferecidos — isto é, ingressos distribuídos gratuitamente pelas entidades promotoras, o que, em alguns casos, pode inflacionar artificialmente a assistência às touradas.
O relatório da IGAC indica que, embora tenham sido emitidas 164 licenças para eventos tauromáquicos, apenas 143 touradas chegaram a realizar-se. As restantes foram canceladas “por razões de ordem meteorológica”, tendo apenas um espetáculo sido recusado por falta de autorização. Este número representa uma queda de cerca de 14% face a 2023, que já tinha sido o ano com menos touradas em Portugal.
Os dados do INE, por sua vez, apresentam uma variação ligeira: a instituição contabilizou 133 touradas realizadas em 2024, diferença explicada pela ausência de resposta de alguns promotores ao inquérito estatístico, cuja taxa de resposta foi de 97,6%.
O declínio da atividade reflete-se também na quebra de público. De acordo com o INE, o número de espectadores nas praças de touros do território continental foi de 225.970, enquanto o total nacional — incluindo os Açores, onde a tauromaquia mantém forte tradição — chegou a 244.053 pessoas. Comparando com 2023, quando se registaram 258.381 espectadores, houve uma redução de mais de 14 mil pessoas, correspondente a 5,6%.
Bilhetes oferecidos disparam em 2024
Em contraste com o declínio generalizado, o número de bilhetes oferecidos aumentou significativamente. Segundo o INE, as promotoras reservaram 41.311 bilhetes para oferta, mais 34% do que em 2023, ano em que tinham sido distribuídos 30.896 ingressos.
A análise histórica mostra uma evolução irregular: em 2022, foram oferecidos mais de 51 mil bilhetes, enquanto em 2021, ainda sob as restrições da pandemia, o número ficou pouco acima dos 20 mil.
Contudo, os números oficiais são contestados pela plataforma Basta de Touradas, que considera que o levantamento do INE não contabiliza os bilhetes comprados por autarquias às empresas tauromáquicas. “Só em Santarém, a câmara municipal gastou quase 70 mil euros em bilhetes para três touradas realizadas este ano na praça de touros da cidade”, afirma a organização em comunicado.
No portal Base, é possível confirmar um contrato no valor de 64.386 euros entre a Câmara Municipal de Santarém e a Associação Sector 9, uma das promotoras identificadas pela IGAC, para a aquisição de bilhetes destinados às touradas realizadas a 22 de março, 7 e 10 de junho de 2025.
Segundo a plataforma, outras autarquias terão feito aquisições semelhantes, o que, na prática, reduz o número real de bilhetes vendidos e distorce as estatísticas oficiais de assistência.
O relatório da IGAC revela ainda que, ao longo de 2024, foram realizadas 17 ações de fiscalização “distribuídas por vários concelhos do país”. Apesar da presença de delegados técnicos tauromáquicos em todos os espetáculos, foram registados 13 autos de notícia por irregularidades.
As infrações dizem respeito a violação do Regulamento de Espetáculos Tauromáquicos (RET), falhas no funcionamento de eventos de natureza artística e incumprimentos relacionados com o regime jurídico do Livro de Reclamações.














