Nova lei permite a Putin mobilizar dois milhões de reservistas mesmo em tempo de paz (e para o estrangeiro)

O governo russo aprovou um projeto de lei que concede ao presidente Vladimir Putin o poder de mobilizar reservistas não apenas em tempo de guerra, mas também em tempo de paz, segundo avançou esta terça-feira a imprensa russa.

Pedro Gonçalves
Outubro 14, 2025
13:31

O governo russo aprovou um projeto de lei que concede ao presidente Vladimir Putin o poder de mobilizar reservistas não apenas em tempo de guerra, mas também em tempo de paz, segundo avançou esta terça-feira a imprensa russa.

A medida abre caminho à utilização de militares da reserva em operações no estrangeiro, incluindo nas regiões ucranianas de Sumy e Kharkiv, onde decorrem combates intensos.

De acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), um centro de análise norte-americano, a nota explicativa da lei esclarece que as alterações “permitirão à Rússia destacar reservistas em tempo de paz, alargando a atual legislação que apenas o permitia durante a mobilização ou em tempo de guerra”.

O presidente da Comissão de Defesa da Duma, Andrei Kartapolov, confirmou que o diploma autoriza o envio de reservistas para o estrangeiro, “incluindo para as regiões ucranianas de Sumy e Kharkiv”.

Além disso, a lei prevê que, por decisão presidencial, estes militares possam ser convocados para treinos especiais com duração até dois meses, o que reforça a capacidade de Moscovo para reativar o seu contingente de reserva.

Dois milhões de reservistas podem ser chamados para o combate
A Rússia possui atualmente mais de dois milhões de reservistas, segundo dados do próprio parlamento, após o decreto assinado por Putin em 2015 que formalizou o sistema de reserva de mobilização.

O vice-presidente da Comissão de Defesa, Aleksey Zhuravlyov, afirmou que este novo quadro jurídico permitirá “ativar a enorme capacidade de mobilização do país” e convocar reservistas com muito mais frequência.

“Estamos a conduzir operações de combate muito reais e em grande escala, mas oficialmente não foi declarada guerra”, declarou Zhuravlyov, acrescentando que “estes pormenores técnicos legais limitavam a flexibilidade do Ministério da Defesa — agora foram eliminados”.

Os reservistas são, na maioria, ex-militares que serviram voluntariamente, recebendo pagamentos e benefícios para permanecerem vinculados ao exército russo. Com a nova lei, poderão ser chamados para operações de combate reais, algo que até agora só acontecia em circunstâncias excecionais.

Escassez de recrutas obriga Moscovo a mobilizar mais homens
A decisão surge num contexto de dificuldades de recrutamento para o exército russo.
Segundo o ISW, o Kremlin está atualmente a recrutar cerca de 31.600 novos militares por mês, mas enfrenta uma média de 35.193 baixas mensais desde o início do ano, o que evidencia um défice crescente de tropas disponíveis.

Apesar dessas perdas, o instituto norte-americano nota que “as forças russas parecem capazes e dispostas a manter estas taxas de baixas, apesar de os avanços no terreno continuarem limitados”.

Para compensar, Moscovo tem aumentado significativamente os prémios de assinatura de contrato, com novos soldados a receber até 2,5 milhões de rublos (cerca de 27 mil euros), o que equivale a cinco vezes o salário anual médio na Rússia.

Um relatório recente do think tank britânico OpenMinds indica que o Ministério da Defesa russo tem alterado o discurso das suas campanhas de recrutamento, privilegiando cargos longe da linha da frente.

As mensagens oficiais recorrem cada vez mais a expressões como “serviço seguro”, “unidades de retaguarda” ou “serviço fácil”, tentando atrair voluntários sem experiência de combate.

Apesar dessas mudanças, as necessidades militares continuam a aumentar. A Rússia tem recorrido ao apoio logístico e militar da Coreia do Norte e de Cuba, e procura ainda recrutar combatentes de países africanos e do Médio Oriente, de acordo com as mesmas fontes.

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