A Rússia inicia hoje a obrigatoriedade da app nacional Max em todos os smartphones, tablets, computadores e televisores inteligentes vendidos no país, marcando um passo decisivo na construção de um ecossistema digital soberano. A medida, promovida pelo Governo russo, visa substituir serviços estrangeiros como WhatsApp e Telegram, que têm enfrentado restrições técnicas recentes.
Desenvolvida pelo grupo VK, Max é apresentada como uma alternativa nacional aos mensageiros internacionais, integrando mensagens, pagamentos e serviços governamentais. A aplicação, lançada em março, já conta com mais de 18 milhões de contas registadas, um crescimento significativo face a apenas 1 milhão em junho.
Segundo os responsáveis, a app deverá tornar-se a “super-app” da Rússia, permitindo não só comunicação entre cidadãos, mas também acesso a serviços públicos via portal Gosuslugi, incluindo pagamento de serviços, assinatura de documentos e interação com entidades do Estado.
Implementação obrigatória e pressão sobre escolas e serviços públicos
O Kremlin exigiu que todas as marcas vendam dispositivos com Max pré-instalada. Além disso, pelo menos 57 regiões russas estão a obrigar funcionários públicos e instituições educativas a migrarem para Max, substituindo Telegram e WhatsApp em chats de escolas, condomínios e órgãos municipais.
Em Moscovo, por exemplo, o Ministério das Habitações e Serviços Comunitários instruiu a migração dos grupos de bairros para Max. Na república do Tatarstan, escolas, alunos, pais e docentes terão de adotar a aplicação até novembro, como parte de um projeto piloto em várias regiões.
Alguns profissionais manifestam receio: “No trabalho, fomos informados de que em breve teremos todos de mudar para Max. Não nos disseram exatamente como, ou se podemos recusar. Sabendo que Max é uma ferramenta de controlo estatal, eu preferiria não a usar”, disse um pediatra de 63 anos de São Petersburgo ao The Moscow Times.
Limitações técnicas e preocupações de privacidade
Apesar da promoção oficial, a app enfrenta vulnerabilidades e críticas. Investigadores de segurança identificaram falhas graves, levando a VK a criar recompensas para deteção de bugs, chegando a 5 milhões de rublos (cerca de 60 mil euros) para problemas críticos.
A app só pode ser registada com números russos ou bielorrussos, impedindo cidadãos no estrangeiro de comunicar através de Max sem obter números locais. Além disso, a aplicação recolhe dados sensíveis, incluindo IP, geolocalização, contactos e acesso a câmaras, microfone e biometria, sendo possível o compartilhamento com entidades estatais e parceiros da VK.
Para impulsionar a adoção, celebridades russas têm promovido Max. A rapper Instasamka elogiou a qualidade das chamadas, enquanto o músico Yegor Krid incluiu a app num videoclipe, garantindo conectividade “mesmo no mar”. No entanto, os utilizadores criticam a app, descrevendo congelamentos e mensagens que não são entregues, e comentadores destacam o caráter coercitivo da campanha.














