Um médico para 600 camas: Nova urgência agrava caos no Hospital Amadora-Sintra

A abertura do novo Serviço de Urgência Básica (SUB) do Hospital de Sintra, a 12 de julho, veio intensificar os problemas de sobrecarga já sentidos no Hospital Fernando da Fonseca (HFF), também conhecido como Hospital Amadora-Sintra.

Revista de Imprensa
Julho 23, 2025
9:10

A abertura do novo Serviço de Urgência Básica (SUB) do Hospital de Sintra, a 12 de julho, veio intensificar os problemas de sobrecarga já sentidos no Hospital Fernando da Fonseca (HFF), também conhecido como Hospital Amadora-Sintra. Apesar de ter sido criada para aliviar a pressão assistencial daquela unidade, profissionais de saúde denunciam ao Diário de Notícias (DN) que o efeito está a ser o oposto: médicos estão a ser desviados das escalas fixas do HFF para o novo serviço, deixando equipas reduzidas ao mínimo e, em alguns casos, apenas um especialista responsável por todo o internamento — cerca de 600 camas.

Fontes do HFF garantem que “diariamente é retirado um médico da equipa fixa para Sintra”, agravando a capacidade de resposta na urgência externa e interna. “Já houve dias em que um só médico de Medicina Interna teve de assegurar as duas urgências, o que é impensável”, dizem. Internos recém-especialistas também têm sido destacados para o novo hospital, diminuindo ainda mais os recursos disponíveis na unidade-mãe. Segundo os profissionais, a principal razão é simples: “Não foi contratado um único médico para o novo SUB.”

O impacto tem sido visível. Esta terça-feira, dia 22, o site do SNS indicava que o HFF registava o maior tempo médio de espera da região de Lisboa para primeira observação: 7 horas e 28 minutos para 86 doentes em espera. No mesmo período, o hospital Garcia de Orta, em Almada, tinha uma média de 4h17m, e o de Cascais apenas 1h47m. “Isto não é só exaustivo para quem trabalha, é perigoso para os doentes”, sublinham as fontes ouvidas.

A situação tem levado a protestos internos e ameaças de abandono da unidade por parte de médicos. A Ordem dos Médicos já confirmou ao DN que vai exigir explicações à administração da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra (ULSASI). Também a Federação Nacional dos Médicos (Fnam) critica a falta de planeamento. Joana Bordalo e Sá, presidente da Fnam, afirma que “o HFF já era um hospital em falência de recursos” e denuncia que, na urgência geral, há dias em que apenas um médico interno e um especialista asseguram todo o serviço. “Um médico para 600 camas, não pode ser.”

A administração da ULSASI contesta as críticas e garante que tem reforçado as equipas. Entre janeiro e 22 de julho, terão sido contratados 36 médicos com contrato de trabalho, incluindo sete de Medicina Interna, e 48 prestadores de serviços. Para Sintra, estarão já escalados quatro médicos por turno diurno e dois durante a noite. Desde a abertura, o novo SUB realizou 1266 atendimentos, com uma média de 135 doentes por dia. A administração sublinha ainda que o “feedback da população é positivo”.

No entanto, a realidade no terreno parece contradizer esse otimismo. Casos como o de um enfermeiro obrigado a ir de táxi do HFF ao Hospital de Sintra com material clínico, ou de um doente com enfarte que esperou 1h30 para ser transferido para um cateterismo, alimentam críticas sobre a falta de definição de procedimentos e de recursos. “Isto não é prestação de cuidados em segurança”, adverte a Fnam. A presidente da estrutura sindical acusa ainda o Governo de ter apressado a abertura do hospital, financiado por fundos do PRR, por razões políticas e sem garantir os recursos humanos necessários.

Apesar da promessa de reforços, profissionais insistem que a abertura da nova urgência apenas redistribuiu a escassez já existente. “Uma nova infraestrutura deveria representar um alívio, mas sem médicos suficientes, só agravou a carga de trabalho e criou mais riscos”, concluem.

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