O Governo prolongou até ao final desta terça-feira, a situação de alerta devido à vaga de incêndios que atinge sobretudo o Norte e o Centro do país, mantendo também o estado especial de prontidão no nível 4, o mais elevado. A decisão, anunciada pela ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, poderá, no entanto, ser prorrogada já amanhã, quarta-feira, caso as condições adversas persistam.
“Apesar de ter sido possível diminuir a severidade de alguns dos grandes incêndios, ainda persistem condições muito desfavoráveis. O agravamento dos ventos e as dificuldades operacionais relacionadas com o fumo, que envolve vários territórios e impede a utilização dos meios aéreos, são alguns desses fatores”, explicou no domingo Maria Lúcia Amaral em conferência de imprensa na Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), em Carnaxide.
A governante destacou que a decisão foi tomada após ouvir peritos e implica a manutenção de restrições, como a proibição de queimadas, queimas e fogo de artifício. Acrescentou ainda que Marrocos autorizou Portugal a manter até quarta-feira os dois aviões Canadair que tinham sido cedidos há uma semana e que deveriam ter regressado na passada sexta-feira.
A ministra não respondeu às questões dos jornalistas, remetendo os esclarecimentos adicionais para o comandante nacional da Proteção Civil, Mário Silvestre.
Situação operacional complexa e incêndios preocupantes
No ponto de situação realizado ontem ao início da tarde pela ANEPC, Mário Silvestre informou que até às 17h de domingo tinham sido registadas 55 ocorrências, 22 das quais durante a noite. Entre as situações mais preocupantes estavam os incêndios em Trancoso (Serra da Estrela), Vila Boa (Sátão), Piódão (Arganil), Candal (Sabugal), Pêra do Moço (Guarda), Poiares (Freixo de Espada à Cinta), Aldeia de Santo António (Sabugal), Sortelha (Sabugal), Vilarinho (Tarouca) e Mirandela (Trás-os-Montes).
O responsável destacou que permaneciam em fase de resolução, conclusão ou vigilância 38 ocorrências, envolvendo 1002 operacionais, 309 veículos e 11 meios aéreos.
Sobre eventuais falhas no Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), Silvestre afirmou que “desde que foram reportadas as falhas não se registaram mais constrangimentos”.
Dois aviões Fire Boss, provenientes da Suécia, são esperados no país esta segunda-feira e deverão começar a operar já amanhã, depois de atrasos na entrega.
Segundo dados oficiais provisórios, até 17 de agosto já arderam 172 mil hectares em Portugal, superando a área ardida em todo o ano de 2024.
Palavras de Montenegro: reconhecimento e confiança nas forças no terreno
Na segunda-feira, o primeiro-ministro Luís Montenegro deslocou-se para acompanhar a situação e deixou palavras de reconhecimento às forças envolvidas no combate às chamas.
“Quero deixar um reconhecimento da bravura de quem está no terreno. Estamos a viver 24 dias seguidos de severidade meteorológica como não há registo no país. São dias e dias de sofrimento, de terror em muitos casos, e é preciso manter discernimento para com os que estão a lutar pela nossa segurança”, afirmou o chefe do Governo.
Montenegro sublinhou também o papel das comunidades locais, que têm apoiado os operacionais: “As populações têm sido heroicas, na defesa do seu património e na solidariedade”.
Reconhecendo a complexidade da coordenação, o primeiro-ministro apelou à compreensão: “É necessário que todos tenham noção de que há uma cadeia de comando, e forças que estão consecutivamente a ser chamadas para operações em vários locais, ao mesmo tempo, com períodos de descanso que se vão acumulando”.
Montenegro insistiu ainda que é preciso valorizar tanto os grandes teatros de operações como os incêndios menores que são travados todos os dias: “Temos de olhar para os que estão nos teatros de operações mais complexos, mas não esquecer os outros que estão a evitar novas ignições, ou que se propaguem. Precisamos de confiar. Deixo uma palavra de confiança. Temos de confiar nos nossos bombeiros, nas forças de segurança, na GNR, nas Forças Armadas, nos autarcas, nos sapadores…”.
Estado de prontidão no nível máximo
No balanço desta segunda-feira, Mário Silvestre confirmou a manutenção do estado especial de prontidão no nível 4 até quarta-feira, alinhado com a extensão da situação de alerta.
Durante a manhã, tinham sido registadas 17 ocorrências, dez delas durante a noite, com maior incidência no Norte, sobretudo no Tâmega e Sousa e no Alto Minho. Entre os incêndios mais preocupantes estavam os de Piódão (que já se estendeu a Covilhã e Fundão), Poiares, Aldeia de Santo António, Vale Verde (Mirandela) e Vilarinho (Tarouca).
“O incêndio do Piódão é o que mobiliza maior número de operacionais, num combate extremamente difícil devido aos ventos e à dificuldade de acessos”, destacou Silvestre.
No total, estão mobilizados 3708 operacionais nas diferentes frentes e operações de vigilância. O comandante reforçou também o apelo à população: “Continuamos a dizer: não usem fogo nem pratiquem qualquer atividade que possa resultar em incêndio. Reforço a necessidade de se manterem em segurança e não se aproximarem das frentes de fogo”.
Silvestre admitiu “erros pontuais de comunicação”, mas rejeitou falhas estruturais no combate.
Luís Montenegro encerrou a sua intervenção sublinhando a necessidade de união: “Este é um tempo onde estamos concentrados e mobilizados no combate e para dar as respostas mais imediatas”.














