A União Europeia tinha já alertado em maio para o risco de ataques russos contra sistemas de navegação por satélite usados pela aviação civil e militar, meses antes de a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ter visto o seu voo perturbado por interferências de GPS quando aterrou na Bulgária, mo passado domingo.
O aviso consta de um documento interno do Conselho da UE, citado pelo jornal espanhol El Español, que identifica a Rússia e a Bielorrússia como responsáveis por uma “ação sistemática e deliberada” de sabotagem dos sistemas GNSS (Global Navigation Satellite Systems). Estas operações, classifica o texto, fazem parte de um “ataque híbrido ao espectro radioelétrico, essencial para a tecnologia moderna e para a segurança regional”.
O incidente mais recente ocorreu no domingo, quando a aeronave que transportava Von der Leyen se aproximava do aeroporto de Plovdiv, no sul da Bulgária. A perda do sinal de GPS obrigou os controladores aéreos e a tripulação a recorrer a métodos alternativos, incluindo mapas em papel e sistemas terrestres de navegação, para garantir a segurança do voo.
“Podemos confirmar que houve uma interferência no GPS, mas o avião aterrou em segurança na Bulgária”, declarou a porta-voz da presidente da Comissão, Arianna Podestà, acrescentando que “as autoridades búlgaras suspeitam que esta interferência flagrante foi levada a cabo pela Rússia”.
A notícia do incidente foi inicialmente divulgada pelo Financial Times. Questionada sobre se o ataque teria como alvo específico Von der Leyen, a Comissão Europeia recusou confirmar ou desmentir. O episódio surge, no entanto, poucos dias depois de um bombardeamento russo em Kiev ter atingido a zona da delegação da União Europeia, reforçando a perceção de que Moscovo está a intensificar as suas ações contra símbolos e representantes comunitários.
Após aterrar, Von der Leyen foi perentória: “Putin não mudou e não vai mudar. É um predador. Só pode ser travado com uma dissuasão forte”, declarou.
Nos últimos dias, a presidente da Comissão tem realizado uma digressão pelos Estados-membros na linha da frente da guerra, incluindo Letónia, Finlândia, Estónia, Polónia, Lituânia, Roménia e Bulgária, como sinal de solidariedade perante a agressão russa.
O documento interno do Conselho da UE, debatido pelos ministros das Telecomunicações a 8 de junho, sublinha que as interferências começaram em 2022, após o início da invasão russa da Ucrânia, e têm afetado sobretudo a região do mar Báltico.
As técnicas usadas são duas: o jamming, que bloqueia a receção de dados sobre localização, altitude e tempo; e o spoofing, que envia sinais falsos, levando a aeronave a registar informações erradas sobre a sua posição.
Desde agosto de 2024, verificou-se um “aumento drástico” destes ataques. Exemplos incluem a Lituânia, que passou de 556 casos em março de 2024 para 1185 em janeiro de 2025; a Letónia, de 790 para 1288 no mesmo período; a Estónia, que registou mais de mil casos em cada trimestre; e a Polónia, que passou de 1908 incidentes em outubro de 2024 para 2732 em janeiro de 2025. Também no início de 2025 se começaram a observar interferências frequentes em navios no mar Báltico.
Estados-membros exigem ação imediata
Perante a escalada, 17 Estados-membros, incluindo Espanha, enviaram em junho uma carta à Comissão Europeia a exigir medidas urgentes e coordenadas contra as interferências russas e bielorrussas. Entre as propostas está a suspensão do direito de Moscovo e Minsk de registar recursos radioelétricos na União Internacional de Telecomunicações enquanto persistirem as ações de sabotagem.
Os governos pedem também que a UE acelere o reforço do sistema europeu de navegação Galileo, com funções antispoofing, e que estreite a cooperação civil e militar com a NATO. Outras medidas em cima da mesa passam pela intensificação da colaboração com a indústria, testes regulares de sistemas de backup e maior pressão diplomática sobre os responsáveis.
Em resposta, Bruxelas confirmou esta segunda-feira que está já a elaborar um plano de ação específico para o setor da aviação, em coordenação com a Agência Europeia de Segurança Aérea, a Eurocontrol, os Estados-membros e a indústria.
A UE incluiu ainda na sua lista de sanções várias empresas e indivíduos ligados às interferências, no quadro das medidas adotadas devido à guerra na Ucrânia.
A porta-voz de Von der Leyen reforçou que “as ameaças e intimidações da Rússia são um componente habitual do seu comportamento hostil”, mas assegurou que o episódio “só vai reforçar o compromisso inabalável da União em aumentar as suas capacidades de defesa e apoiar a Ucrânia”.














