Trump pode fazer aumentar preços dos medicamentos na Europa ou travar novos tratamentos

Trump acusou a Europa de estar entre os “parasitas estrangeiros” do mundo, que, segundo ele, desfrutam de medicamentos baratos às custas do sistema de saúde dos EUA

Francisco Laranjeira
Junho 23, 2025
12:59

Os sistemas de saúde da Europa estão em risco de pagar mais pelos medicamentos – ou perder o acesso a novos tratamentos – devido à pressão de Donald Trump para que a indústria global farmacêutica corte os preços nos EUA.

A intenção da Casa Branca pode ter consequências significativas para os sistemas de saúde europeus, alertaram os especialistas, apontando que tanto a Administração Trump como as farmacêuticas provavelmente procuração aumentos de preços na Europa para permitir custos mais baratos nos EUA.

A chamada política da Nação mais Favorecida de Trump, estabelecida numa ordem executiva em maio último, está a pairar sobre as negociações da indústria sobre mudanças no seu acordo de preços no Reino Unido, que devem ser concluídas neste mês.

As farmacêuticas estão a usar a política como argumento para reforçar a sua posição a favor de cobrar mais do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, referiu o ‘Financial Times’: a indústria teme que, se aceitar um acordo menor com o NHS, a Administração Trump possa tentar reduzir os preços dos medicamentos nos EUA para os níveis do Reino Unido.

Os países europeus provavelmente resistirão a aumentos significativos de preços porque os orçamentos estão limitados e muitos contratos com as empresas são longos. Ou seja, pode fazer com que as farmacêuticas acabam por não lançar novos medicamentos em mercados onde o preço será muito mais baixo.

Donald Trump acusou a Europa de estar entre os “parasitas estrangeiros” do mundo, que, segundo ele, desfrutam de medicamentos baratos às custas do sistema de saúde dos EUA, que paga preços altíssimos por medicamentos de marca.

A política da Nação Mais Favorecida pressiona os fabricantes de medicamentos a oferecer aos pacientes dos EUA o menor preço que cobram em qualquer país onde o PIB per capita seja de pelo menos 60% dos níveis dos EUA.

Dustin Benton, diretor administrativo da Forefront Advisors, empresa de pesquisa de risco político, apontou que a política baseia-se na premissa de que o Governo americano pode pressionar os sistemas de saúde europeus a pagar mais pelos medicamentos. “A ideia é que se os europeus pagam mais pelos medicamentos, então os americanos podem pagar menos pelos seus”, explicou, frisando que a indústria farmacêutica estava a descobrir o “lado negativo de ser multinacional”.

“Acreditamos que o objetivo final é que, se o preço nos EUA for 100 dólares e na Europa for 20, Trump quer que a Europa chegue a 80, 90 dólares e que os EUA caiam para o mesmo valor”, disse Philip Sclafani, sócio da área de ciências biológicas da PwC.

A UE teria dificuldades para incluir promessas sobre preços de medicamentos em seu potencial acordo comercial com Washington porque os estados-membros controlam suas próprias negociações orçamentárias sobre medicamentos.

A política Nação Mais Favorecida ameaça os modelos de negócios das empresas farmacêuticas, que são baseados num grande mercado dos EUA, onde os preços dos medicamentos são, em média, cerca de 2,3 vezes mais altos do que em outros 32 países da OCDE, de acordo com uma pesquisa da Rand Corporation para o departamento de saúde e serviços humanos dos EUA.

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