A segurança cibernética está a consolidar-se como um dos setores mais dinâmicos do mercado global, confirmando as previsões dos analistas. As transações de fusões e aquisições (M&A) nessa área atingiram o recorde de 34 milhões de euros entre janeiro e março deste ano, mais do dobro do que em igual período de 2024 e seis maior do que em 2023, segundo o último relatório de segurança cibernética do banco de investimentos ‘Houlihan Lokey’, citado pelo jornal espanhol ‘CincoDías’.
Embora os números reflitam “a procura sustentada dos investidores por soluções de segurança cibernética”, o banco alertou que, desde o anúncio de tarifas de Trump, a 2 de abril último, a estabilidade dos mercados públicos foi afetada.
Assim, no primeiro trimestre, foram fechadas no setor um total de 86 operações. Esse aumento geral se reflete em um contexto marcado pelo endurecimento do quadro regulatório europeu com a entrada em vigor de novas regulamentações, como a Diretiva NIS2 , que amplia as obrigações de proteção de dados para PMEs e prevê multas de até 10 milhões de euros a partir de outubro de 2024.
Ao mesmo tempo, o avanço da Inteligência Artificial (IA), que permite que invasores lancem ameaças mais sofisticadas e automatizadas, está a enfraquecer a eficácia das soluções tradicionais de segurança cibernética. Diante desse novo cenário, proteger infraestruturas digitais — como bancos de dados, redes internas e aplicativos de negócios — tornou-se uma prioridade estratégica para as empresas, que estão a recorrer cada vez mais a ferramentas baseadas em IA para antecipar ataques e responder em tempo real.
Na Europa, setores como energia, saúde e transportes têm vindo a aumentar os investimentos em segurança digital. O relatório da Houlihan Lokey salienta que a “pressão regulatória” e a “sofisticação crescente dos ataques” — incluindo ransomware e espionagem industrial — tornaram “a resiliência digital um imperativo”.
Segundo dados da consultora PwC, uma em cada cinco empresas europeias prevê aumentar o orçamento de segurança cibernética em mais de 11% durante 2025.
Um dos marcos do trimestre foi a aquisição da Wiz pelo Google, anunciada a 18 de março. Avaliada em quase 30 milhões de euros, trata-se da maior operação da história da gigante tecnológica e reforça a sua aposta em liderar o mercado de segurança em nuvem.
A Wiz é especializada na identificação de riscos em tempo real e a sua tecnologia será integrada no Google Cloud para reforçar os serviços oferecidos a empresas e organismos públicos. Contudo, a compra levanta dúvidas quanto à futura relação da empresa com concorrentes como a AWS e a Microsoft Azure, que até agora utilizavam os serviços da Wiz.
Entre as empresas cotadas do setor, a Okta e a Rapid7 registaram as maiores oscilações no trimestre. A Okta, dedicada à gestão de acessos digitais, valorizou mais de 30% no final de abril, após apresentar resultados sólidos e rever em alta as previsões. Já a Rapid7, especializada em deteção de ameaças, perdeu mais de 30% em meados de maio, na sequência do anúncio de uma reestruturação e da revisão em baixa das expectativas de receita.
Segundo o relatório, estas flutuações evidenciam a volatilidade do setor nos mercados públicos, contrastando com a robustez demonstrada pelo investimento de private equity.
O estudo da Houlihan Lokey destaca ainda a evolução positiva no financiamento privado para startups e scaleups de segurança cibernética. No primeiro trimestre de 2025, foram concluídas 193 rondas de investimento, mobilizando cerca de 3,5 mil milhões de euros — mais 18% do que no mesmo período do ano anterior.
As áreas de inovação mais procuradas incluem a proteção de dados, a deteção de ameaças baseada em IA e a segurança de dispositivos conectados.
O banco de investimento antecipa que a atividade de fusões e aquisições continuará a crescer ao longo do ano “à medida que o cenário macroeconómico e tarifário se torna mais claro” e devido à “necessidade de consolidar capacidades de segurança cibernética num mercado fragmentado”.














