A ameaça do terrorismo nuclear é cada vez alvo de maior atenção, de acordo com um relatório encomendado pelo Congresso dos Estados Unidos. Ao longo das últimas décadas, os EUA empregaram uma abordagem multifacetada para prevenir o terrorismo nuclear, recorrendo à cooperação internacional, aos tratados de não proliferação, às medidas de segurança interna, aos esforços de inteligência e aos avanços tecnológicos.
No entanto, o relatório aponta que, apesar de terem sido feitos esforços, não têm sido suficientes para fazer face à ameaça crescente e destaca a necessidade de medidas amplas para gerir eficazmente o risco de terrorismo nuclear.
“A questão do terrorismo nuclear continua a ser uma questão muito real. Há enormes riscos envolvidos e os riscos são elevados, mas a questão tem saído do radar do público americano ao longo dos últimos 15 anos, e o conjunto de competências das pessoas envolvidos na sua gestão estão a envelhecer”, reconhece Stephen Flynn, professor de ciência política e diretor fundador do Instituto de Resiliência Global da Northeastern University, citado pela revista ‘Newsweek’.
“Precisamos realmente ficar de olho na bola. Foi bastante oportuno para o Congresso pedir uma avaliação deste risco e fornecer recomendações para nos mantermos atentos a esta questão”, disse Flynn.
O relatório afirma também que houve muitas mudanças no cenário do terrorismo nuclear desde o 11 de Setembro e a Guerra do Iraque. “Tivemos uma guerra contra o terrorismo depois do 11 de Setembro, mas isso não conseguiu eliminar a ameaça terrorista”, sustenta Flynn. “O terrorismo continua a transformar-se.”
Agora, com as ações de Israel nos territórios palestinianos, bem como as ações do Hamas e do grupo iraniano Hezbollah – ambos considerados grupos terroristas pelo Departamento de Estado dos EUA – vivemos num mundo onde Estados e Não-Estados que procuram armas nucleares estão envolvidos em guerras.
“A designação entre atores não estatais e atores estatais é confusa”, disse Flynn. “A avaliação revela que temos de nos concentrar onde essas duas coisas podem sobrepor-se.”
Flynn alerta que recentemente tem havido uma falta de distinção entre terrorismo doméstico e internacional. “Particularmente quando olhamos para a extrema-direita, os grupos terroristas internacionais estão a recrutar americanos para estas organizações, e os americanos estão a contactar organizações extremistas que têm elementos terroristas.”
Durante a Guerra Fria, a União Soviética e os EUA eram as duas maiores potências nucleares do mundo, mas agora são três, com a adição da China. “É difícil chegar a acordos de controlo de armas como uma relação de mão dupla”, diz Flynn. “É quase impossível fazer isso como uma tríade.”
Em 2024, existiam mais de 12 mil ogivas nucleares em todo o mundo. A Rússia detém cerca de 5.580, os EUA aproximadamente 5.100, a China 500, a França 290 e o Reino Unido 225. A Índia e o Paquistão têm cada um cerca de 170 ogivas, Israel tem 90 e a Coreia do Norte possui 50, de acordo com a Federação de Cientistas Americanos.
“Estamos num mundo neste momento onde a maior parte do controlo dos programas em vigor para gerir o fornecimento e o controlo de armas nucleares está basicamente a desmoronar-se”, aponta o especialista.
“Muitas novas centrais nucleares estão a ir para lugares onde nunca estiveram antes, e isso não está a acontecer com os EUA a definir e a aplicar as regras, mas a ser liderados pelos chineses e russos, com menos controlos de segurança em vigor”, disse Flynn. “A maioria dos materiais que podem ser usados para produzir uma ‘bomba suja’ sempre foi difícil de controlar, e agora há mais disponíveis. Mesmo sem a cumplicidade dos atores estatais, há mais risco de grupos terroristas poderem pôr as mãos nestes materiais”, conclui.














