Protestos contra excesso de turismo reacendem-se em Espanha antes da Páscoa e prometem verão ‘a ferro e fogo’

Com a chegada das férias da Páscoa e a antecipação de mais um verão com níveis recorde de visitantes, o descontentamento com o turismo de massas volta a crescer em Espanha. Os residentes de várias regiões do país denunciam que as medidas implementadas pelo governo são insuficientes para combater os impactos negativos da pressão turística e preparam-se para uma nova vaga de protestos.

Pedro Gonçalves
Abril 7, 2025
17:23

Com a chegada das férias da Páscoa e a antecipação de mais um verão com níveis recorde de visitantes, o descontentamento com o turismo de massas volta a crescer em Espanha. Os residentes de várias regiões do país denunciam que as medidas implementadas pelo governo são insuficientes para combater os impactos negativos da pressão turística e preparam-se para uma nova vaga de protestos.

No verão de 2024, mais de 90 milhões de turistas estrangeiros visitaram Espanha — um número sem precedentes — e, segundo a consultora Braintrust, esse valor poderá aumentar para 115 milhões até 2040. Esta afluência massiva tem vindo a alterar profundamente a vida quotidiana dos residentes, que acusam o setor de sobrecarregar recursos e serviços, encarecer a habitação e degradar o ambiente.

Com a aproximação da Páscoa, o movimento de contestação está novamente a ganhar força. Os residentes exigem maior regulamentação e alertam para o risco de um colapso social e ambiental se nada for feito antes da época alta.

Em Maiorca, está marcada uma manifestação para 5 de abril com o lema “Acabemos com o negócio da habitação”. Num comunicado, os organizadores criticam “a ganância e a avareza dos hoteleiros, dos políticos, dos investidores imobiliários e dos parasitas de todos os tipos”, responsabilizando-os pela destruição do ecossistema da ilha, pela gentrificação e pela sobrecarga dos serviços públicos. “Imploramos aos turistas que não venham. São a fonte dos nossos problemas”, escreveram os ativistas numa carta aberta.

Também nas Ilhas Canárias, o clima de tensão está a aumentar. Os trabalhadores da hotelaria e da restauração ameaçam avançar com uma greve durante a Páscoa, exigindo melhores condições salariais. Os dois maiores sindicatos do país, a Comisiones Obreras (CCOO) e a Unión General de Trabajadores (UGT), propuseram um aumento salarial de 7,75% ou um pagamento único para compensar o aumento do custo de vida. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística espanhol, 33,8% da população das Canárias está em risco de pobreza ou exclusão social — o valor mais elevado do país, apenas superado pela Andaluzia.

Crise habitacional e protestos radicais
A especulação imobiliária impulsionada pelo turismo tem sido uma das principais causas de descontentamento. Em Tenerife, alguns residentes chegaram a dormir em carros ou até em grutas, por não conseguirem pagar habitação na ilha. Em abril de 2024, os protestos chegaram ao ponto de incluir greves de fome contra dois novos empreendimentos hoteleiros.

“Não temos nada contra os turistas individuais, mas a indústria está a crescer de forma descontrolada, usando tantos recursos que a ilha já não consegue suportar”, afirmou Ivan Cerdena Molina, um dos organizadores dos protestos em Tenerife, em declarações à agência noticiosa The Olive Press. O ativista comparou plataformas como o Airbnb e o Booking.com a “um cancro que está a consumir a ilha pouco a pouco”.

As cidades de Barcelona e Madrid também não escapam à pressão. Em junho do ano passado, a Câmara de Barcelona anunciou que irá eliminar todas as licenças de apartamentos turísticos até 2028. Desde 2014 que a cidade já não concede novas autorizações, mantendo o limite nos cerca de 10 mil alojamentos.

Medidas governamentais não convencem residentes
Face ao agravamento da crise da habitação, o governo espanhol anunciou recentemente que irá aplicar um imposto de 100% sobre propriedades adquiridas por residentes de países terceiros, numa tentativa de proteger o mercado imobiliário. Atualmente, cerca de 15% das vendas de imóveis em Espanha são feitas a compradores estrangeiros, incluindo cidadãos da União Europeia, segundo o registo de propriedade espanhol.

Contudo, os residentes consideram que estas medidas são tardias e insuficientes. Na semana passada, ativistas em Tenerife vandalizaram uma frota de carros de aluguer em protesto contra o turismo de massas, ameaçando agora levar as ações até aos aeroportos.

A crescente insatisfação tem levado à criação de redes transnacionais de ativismo. No próximo mês, 15 grupos provenientes de Espanha, Portugal, Itália e França vão reunir-se em Barcelona numa cimeira dedicada ao combate ao turismo insustentável.

Entre os organizadores está o movimento Menys Turisme, Més Vida (“Menos Turismo, Mais Vida”), sediado em Maiorca, que promete intensificar os protestos neste verão. Esta aliança de grupos denuncia os efeitos adversos do turismo excessivo, desde a especulação imobiliária até à expulsão dos residentes locais e à escalada do custo de vida.

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