O mercado fintech tem assistido a um crescimento exponencial em todo o mundo, e Portugal não é excepção à regra. Este tem vindo a redefinir paradigmas e a desempenhar um papel crucial na transformação do cenário financeiro do país.
A presença de diversas fintechs no país está a contribuir para a modernização do sistema financeiro, estimulando a concorrência, inspirando a adopção de práticas mais inovadoras, e assumindo um papel vital no impulso da economia portuguesa para o futuro. Jon Fath, co-fundador e CEO da fintech portuguesa Rauva, falou com a Risco sobre o panorama das fintechs a nível nacional, os projectos em desenvolvimento e perspectivas para o futuro.
Como descreveria o actual cenário das fintechs em Portugal? Quais os principais desafios e oportunidades?
O sector fintech tem vindo a crescer rapidamente em Portugal nos últimos anos. Várias startups e empresas têm surgido em diversas áreas financeiras. Um dos exemplos desse crescimento é a The Fintech House, que, no espaço de um ano, mais do que duplicou o número de empresas residentes.
Depois, é um sector que se tem destacado pela sua abordagem inovadora e pelo uso de tecnologia de ponta. As fintechs não só têm o potencial de melhorar a inclusão financeira em Portugal, chegando a áreas ou segmentos da população que poderão ter sido negligenciados pelos bancos tradicionais, como, além disso, também oferecem soluções que facilitam o acesso a serviços financeiros.
No que respeita às oportunidades, o crescimento das fintechs em Portugal pode contribuir para o desenvolvimento de um ecossistema mais rico em inovação e tecnologia, atraindo investidores e talento para o país, assim como expandir-se para mercados internacionais, exportando tecnologia e conhecimento. Já os principais desafios prendem-se com o investimento em medidas de segurança que protejam os dados dos clientes, e a regulação no sector financeiro ser rigorosa e intrincada.
Quais os desafios e como lidam as fintechs com o ambiente regulatório?
O sector financeiro é altamente regulado para garantir a estabilidade financeira e a protecção dos activos dos clientes. Assim sendo, várias fintechs precisam de obter licenças ou autorizações de reguladores financeiros, como o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Em termos legais, as fintechs são obrigadas a cumprir regulamentos que vão desde a prevenção do branqueamento de capitais, a protecção dos consumidores e a privacidade de dados. Estas regras, apesar de muito importantes, exigem um investimento significativo em tecnologia e recursos humanos.
Na Rauva, estamos a construir uma banktech. Os requisitos de licenciamento enquanto banco exigem a criação de processos robustos alimentados por soluções digitais sofisticadas e uma equipa experiente. Estamos totalmente empenhados neste esforço e estamos a construir um banco em total conformidade com o ambiente regulamentar português. Lidar com o ambiente regulamentar é uma exigência constante, mas o cumprimento dos regulamentos é fundamental para ganhar e manter a confiança dos nossos clientes.
Existe uma colaboração significativa entre as fintechs e as instituições financeiras tradicionais no país?
Sim, pois são parcerias vantajosas para ambas as partes. As fintechs trazem inovação tecnológica e os bancos tradicionais oferecem experiência regulatória, reputação e uma base de clientes estabelecida. Alguns bancos optam inclusive por adquirir fintechs ou investir nelas, o que lhes permite obter tecnologias e conhecimento, assim como lhes dá a oportunidade de modernizar as suas ofertas de serviços e permanecer competitivos.
Já os clientes acabam por beneficiar da variedade de serviços inovadores resultantes dessas colaborações. No caso da Rauva, fizemos exactamente o inverso e estamos a trilhar caminho no sector: enquanto fintech, assinámos um acordo para adquirir 100% das acções do Banco Empresas Montepio, porque estamos a construir com tecnologia de ponta e queremos operá-la com uma licença bancária para servir o utilizador final da forma mais completa.
De que forma as fintechs têm impactado positivamente as empresas em Portugal?
As fintechs trouxeram benefícios significativos, tanto para as empresas como para a economia nacional. Muitas oferecem ferramentas de gestão financeira como softwares de contabilidade e soluções de pagamento, permitindo que as empresas optimizem as suas finanças e controlem despesas de forma mais eficiente. Outras disponibilizam soluções de financiamento alternativo que podem ser mais vantajosas que as tradicionais. Já as fintechs de pagamento oferecem soluções de pagamento rápidas e convenientes, o que beneficia empresas que dependem de transacções financeiras.
Em termos de custos, as fintechs podem oferecer taxas mais baixas e/ou transparentes comparativamente a instituições financeiras tradicionais, algo que os clientes procuram para as suas operações diárias.
No fundo, a agilidade e a capacidade de adaptação das fintechs são especialmente benéficas para as organizações que necessitam de soluções financeiras ágeis e personalizadas.

Quais as principais dificuldades das empresas na gestão das suas finanças?
Até agora, o processo de criação e gestão de uma empresa tem sido altamente complexo, fragmentado e offline. O panorama actual em Portugal não permite a abertura de uma conta comercial de forma exclusivamente digital. Este processo demora normalmente entre uma a quatro semanas e é necessária a deslocação a agências físicas, o que é moroso e inconveniente, com a maioria (73%) dos empreendedores a afirmar que não é fácil abrir uma conta na Europa
Depois, a conta da empresa só pode ser registada e utilizada através de uma determinada aplicação, as facturas são emitidas num software específico e o seu acompanhamento e reconciliação com o extracto tem de ser feito manualmente. Esta dispersão torna a actividade de empresário muito exigente e demorada.
Além disso, no caso das PME, não existem soluções de gestão financeira desenhadas para elas. Num contexto empresarial onde os recursos são escassos, os gestores acabam por dedicar mais de 10 horas semanais a tarefas administrativas, impedindo-os de dedicar tempo ao crescimento das suas empresas. Depois, é também exigido aos empresários que conheçam e garantam a regulamentação fiscal, algo que pode ser desafiante e complexo.
A Rauva é uma one-stop shop que está a combater todos estes constrangimentos, ao integrar vários serviços e funcionalidades de gestão empresarial numa só plataforma digital, facilmente acessível a todos, com o objectivo de impactar mais de 99,9% das empresas em Portugal e ajudá-las a manter o seu foco no crescimento e não em questões administrativas e burocráticas.
Como é que a automação e a digitalização financeira estão a ser incorporadas para optimizar os processos empresariais?
A incorporação de automação e digitalização na optimização dos processos empresariais está a desempenhar um papel cada vez mais importante, pois permite que as empresas aumentem a eficiência, economizem tempo e dinheiro, reduzam erros e melhorem o acesso a informações financeiras cruciais. Alguns exemplos dessas práticas são a facturação e os pagamentos electrónicos, as ferramentas de gestão de despesas digitais e os relatórios financeiros automatizados.
Quais as estratégias adoptadas para ajudar as empresas a mitigar riscos em ambientes financeiros voláteis?
Nos últimos anos, os clientes do sector financeiro mundial têm vindo a adaptar-se a choques económicos atrás uns dos outros – desde a pandemia de Covid-19 à guerra na Ucrânia, passando pela subida das taxas de juro para níveis que não se viam há mais de uma década. Todos estes acontecimentos se repercutem nos mercados financeiros e afectam as finanças das empresas. A oferta de produtos financeiros simples e de fácil acesso é essencial para apoiar as empresas nestes tempos difíceis. Isto inclui a concessão de crédito, um domínio em que existe uma lacuna significativa no mercado, especialmente para as PME. Há mais a fazer neste espaço e a Rauva está aqui para preencher este vazio, uma vez que esperamos lançar uma variedade de produtos de crédito para as PME no futuro.
Como analisa a literacia financeira das empresas e dos empresários portugueses?
Existem programas de formação e educação em finanças disponíveis para empresários e gestores de empresas em Portugal e a verdade é que a crescente presença de fintechs no país oferece às empresas oportunidades de acesso a soluções financeiras inovadoras que melhoram a gestão financeira. Na verdade, segundo o primeiro relatório sobre a literacia financeira de empresários de micro e pequenas empresas – Portugal 2021, os empreendedores portugueses apresentam dos maiores níveis de literacia financeira entre 14 países da Rede Internacional de Educação Financeira da OCDE. No caso das pequenas empresas, Portugal ocupa mesmo o 2.º lugar no indicador global de literacia financeira nas empresas.
Contudo, a conformidade com regulamentações fiscais e financeiras pode ser complexa e desafiadora. Neste campo, é essencial o investimento em formação a empresários de modo a tomarem decisões financeiras mais informadas.
A melhoria da literacia financeira só irá contribuir para o sucesso e estabilidade do sector empresarial em Portugal e algumas fintechs já estão a trabalhar nesse sentido, ao fornecerem informações financeiras acessíveis, simplificarem alguns serviços complexos, incorporarem recursos de educação financeira, e ao oferecerem ferramentas de gestão financeira, entre outros.
É este o caso da Rauva, que apoia os empresários ao longo de todo o seu percurso, com conteúdos educativos e transparência, bem como com um acesso fácil a uma equipa de apoio receptiva.
Como é que a Rauva está a ajudar os clientes a compreender e maximizar os benefícios das suas soluções?
A Rauva integra vários serviços e funcionalidades de gestão empresarial numa one-stop shop. Temos um processo de onboarding simples e 100% digital, que permite a qualquer empresa registar a sua nova conta empresarial em apenas alguns minutos. É a única solução integrada em Portugal que permite fazer pagamentos, emitir cartões de débito, enviar facturas em conformidade com a Autoridade Tributária, gerir despesas e ter o negócio monitorizado por contabilistas para garantir o total cumprimento dos regulamentos.
Além disso, a Rauva oferece o serviço de criação de empresas com o apoio de advogados e contabilistas certificados, quando o negócio ainda não está materializado, ajudando portugueses e estrangeiros a prosperar em território nacional.
Estamos também a apoiar os empresários ao longo do seu percurso e trabalhamos continuamente para fornecer mais soluções com base no feedback dos nossos clientes. Para tal, estamos sempre em contacto com os nossos utilizadores para compreender as suas necessidades e melhorar a aplicação, que é actualizada duas vezes por semana.
A optimização e simplificação dos processos burocráticos, bem como a promoção da literacia para o empreendedorismo e a gestão empresarial, promovem um maior estímulo em inovação e ao crescimento. Por isso, podemos dizer que a Rauva tem um impacto directo e positivo no quotidiano dos empresários de PME e freelancers – que representam 99,9% do tecido empresarial português e, consequentemente, na economia nacional.
Que tendências prevê para o sector de fintech em Portugal nos próximos anos?
Portugal está a precisar de uma proposta sólida no que diz respeito à banca como um serviço, tendo o potencial de impulsionar a inovação, não só no espaço dos neobancos, mas também no financiamento integrado.
No ano passado, tivemos a honra de participar no programa Portugal FinLab, organizado pelo Banco de Portugal, pela CMVM e pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), e agora gostaria de ajudar o ecossistema, criando inovação e compreendendo melhor as possibilidades do mercado, para que a tecnologia e a banca trabalhem em conjunto. Isto será possível graças aos reguladores e a estes programas.
Outras tendências incluem a contínua emergência dos bancos digitais e o papel da Inteligência Artificial no mercado das fintech, que certamente será cada vez mais significativo, melhorando a personalização e eficiência dos serviços financeiros.
O tema da sustentabilidade financeira também deve ser levado para cima da mesa, pois o foco nas questões de sustentabilidade e nos investimentos éticos poderá reflectir-se em soluções mais verdes e responsáveis.












