Políticos europeus e os romances ‘picantes’: de André Ventura a Marlène Schiappa

Políticos de topo transformaram experiências pessoais e vivências profissionais em romances eróticos e provocadores, misturando fantasia, romance e escândalo, um fenómeno que surpreende tanto pelo conteúdo quanto pela própria origem dos autores.

Pedro Gonçalves
Agosto 23, 2025
9:00

Lisboa, Bruxelas e Westminster, cidades emblemáticas da política europeia, tornaram-se inesperadamente cenários de histórias escaldantes. Políticos de topo transformaram experiências pessoais e vivências profissionais em romances eróticos e provocadores, misturando fantasia, romance e escândalo, um fenómeno que surpreende tanto pelo conteúdo quanto pela própria origem dos autores. Em Portugal, André Ventura destaca-se como exemplo paradigmático de uma carreira literária pré-política marcada por escritos de teor sexual explícito, uma faceta pouco conhecida do líder do Chega.

Antes de se lançar na política, Ventura publicou dois romances, Montenegro e A Última Madrugada do Islão, em 2008 e 2009, através da Chiado Editora, uma plataforma de edição paga pelo próprio autor. Ambos os livros apresentam descrições de atos sexuais violentos e polémicos. Montenegro conta a história de um ciclista que descobre ser seropositivo, enquanto A Última Madrugada do Islão narra a vida de um jovem em Paris envolvido com o fundamentalismo islâmico, incluindo conspirações internacionais e fantasias sobre figuras históricas. O livro foi retirado do mercado após a primeira edição devido a alegadas ameaças e, hoje, ambos os romances estão esgotados e praticamente impossíveis de adquirir.

Mas Ventura não é caso isolado. Na França, Marlène Schiappa, ex-secretária de Estado para a Igualdade de Género e ministra delegada para a Cidadania, já tinha uma carreira literária sob o pseudónimo Marie Minelli antes de assumir funções governamentais. Schiappa publicou obras de ficção erótica que exploram a sexualidade feminina e desafiam estigmas sociais, incluindo títulos como Osez les sexfriends e Comment transformer votre mec en Brad Pitt en 30 jours. Ao ser revelada a sua autoria destes livros, Schiappa foi alvo de críticas que classificou de sexistas, defendendo o seu trabalho como uma forma de questionar a percepção social da sexualidade das mulheres. Durante o seu mandato, publicou onze livros em nome próprio e um através do pseudónimo Marie Minelli, tendo sido ainda criticada por posar para a capa da revista Playboy, numa polémica que chegou ao gabinete da primeira-ministra Élisabeth Borne.

Em Espanha, Estebán González Pons, deputado no Parlamento Europeu, também combina política e escrita literária. O seu romance Ellas, publicado em 2020, mistura romance e cenas explícitas, refletindo a sua ligação à terra natal e à geração que cresceu durante a Transição espanhola. Apesar das críticas, González Pons mantém-se firme na defesa da sua obra, afirmando que o choque provocado por cenas de sexo em romances se deve à falta de educação sexual nos meios de comunicação.

No Reino Unido, Cleo Watson e Edwina Currie também exploraram o lado mais picante da política. Watson, ex-assessora do Partido Conservador e ligada ao escândalo do “Partygate”, lançou romances como Whips e Cleavage, que descrevem intrigas políticas com episódios de sexualidade explícita entre membros de diferentes partidos. Edwina Currie, antiga deputada conservadora, publicou em 1994 A Parliamentary Affair, uma obra de ficção romântica inspirada em experiências pessoais e relacionamentos reais com figuras políticas, incluindo o antigo primeiro-ministro John Major.

A Áustria também entrou neste fenómeno com Thomas Oberreiter, embaixador junto da União Europeia, que foi acusado de manter um blogue com conteúdo sexual altamente explícito, incluindo cenas sadomasoquistas e de sexo não consensual. Apesar de Oberreiter negar envolvimento, investigações revelaram que publicações foram feitas a partir de dispositivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, levando à sua demissão após uma carreira de mais de 30 anos como diplomata.

Outro caso francês é Bruno Le Maire, ministro da Economia e das Finanças, conhecido pela postura séria e formal, mas que também publicou romances com passagens eróticas, como Fugue américaine e Le Ministre, explorando tanto relações íntimas como episódios históricos e culturais. O conteúdo explícito de algumas cenas provocou reações mistas, particularmente em períodos de tensão política, como a crise das reformas das pensões em 2023.

Este panorama revela um nicho literário inusitado, no qual a experiência política e a ficção erótica se cruzam, mostrando que mesmo figuras públicas de grande visibilidade podem explorar o erotismo e a fantasia em livros, muitas vezes causando polémica e debate público. Em Portugal, André Ventura permanece o exemplo mais mediático, um político cuja trajetória literária antes da política não deixa de surpreender e provocar curiosidade.

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