Panelas “cerâmicas” e “não tóxicas” sob suspeita: estudo aponta presença de substâncias perigosas em utensílios de cozinha da moda

O mercado das panelas “cerâmicas” e “não tóxicas”, promovido por celebridades como Selena Gomez, Oprah Winfrey e Stanley Tucci, está a ser alvo de crescente escrutínio por parte de especialistas em saúde e reguladores nos Estados Unidos.

Pedro Gonçalves
Junho 22, 2025
16:30

O mercado das panelas “cerâmicas” e “não tóxicas”, promovido por celebridades como Selena Gomez, Oprah Winfrey e Stanley Tucci, está a ser alvo de crescente escrutínio por parte de especialistas em saúde e reguladores nos Estados Unidos. Marcas de design como Always Pan, Caraway e GreenPan, que se tornaram fenómenos de vendas e estrelas das redes sociais, estão agora sob investigação devido a alegações de marketing potencialmente enganoso e à presença de substâncias químicas perigosas nos seus produtos.

As panelas de design com revestimento dito cerâmico ganharam enorme popularidade nos últimos anos, impulsionadas por campanhas publicitárias agressivas e pelo apelo de uma estética moderna e apelativa. A Always Pan, da marca Our Place, a Caraway e a GreenPan, por exemplo, destacaram-se como símbolos de um estilo de vida saudável, com mensagens de marketing que prometem produtos “não tóxicos” e “seguros para a saúde da família”.

As vendas dispararam, em especial durante os primeiros meses da pandemia de covid-19, quando as pessoas passaram a cozinhar mais em casa. A Caraway registou um aumento de 390% nas vendas online entre janeiro e maio de 2020, enquanto a Always Pan chegou a ter 30 mil encomendas em espera. Celebridades como Gwyneth Paltrow, Tan France, Drew Barrymore, Gigi Hadid e Kate Hudson associaram-se às marcas, contribuindo para o seu sucesso.

No entanto, uma investigação do The Guardian revela que estas panelas não são realmente feitas de cerâmica no sentido tradicional do termo. As “quasi-cerâmicas”, como são designadas em estudos científicos, são na realidade panelas de alumínio revestidas com um material criado por um processo industrial chamado sol-gel, que envolve sílica, metais e outros compostos químicos.

Marissa Smith, toxicologista sénior no Departamento de Ecologia do estado de Washington, sublinha: “É um desafio para os reguladores e para as famílias perceberem o que realmente está nos produtos e se estamos perante alternativas seguras”. Esse estado norte-americano já exigiu às empresas que forneçam informação detalhada sobre os compostos usados para substituir o Teflon e outros químicos tóxicos como os Pfas, conhecidos como “químicos eternos” devido à sua persistência no ambiente.

Embora as marcas continuem a publicitar as suas panelas como “não tóxicas”, testes independentes e análises de patentes e documentos legais indicam a presença potencial de substâncias preocupantes como dióxido de titânio (incluindo nanopartículas), siloxanos, chumbo, mercúrio, cádmio e subprodutos tóxicos de monómeros. “Há um grande vazio de informação sobre os ingredientes usados”, alertou Smith ao The Guardian.

As fórmulas utilizadas pelas marcas estão protegidas por leis de confidencialidade comercial, o que impede uma verificação independente das alegações feitas. A Caraway, por exemplo, afirmou estar disposta a partilhar os seus relatórios de testes com consumidores interessados, mas recusou divulgar a composição do seu revestimento cerâmico, por ser “propriedade da empresa”. A Our Place reconheceu que a Always Pan não é de facto cerâmica, mas sim um “precursor de cerâmica”, composto por materiais orgânicos e inorgânicos.

A opacidade das empresas quanto à composição dos produtos e a utilização do termo “cerâmica” em campanhas publicitárias levou a acusações de práticas de greenwashing — ou seja, a promoção de uma imagem ecológica e saudável que não corresponde totalmente à realidade.

Rich Bergstrom, proprietário da Xtrema, uma das raras marcas que ainda fabrica panelas de cerâmica tradicional, criticou o uso abusivo do termo: “Irrita-me profundamente. É uma manipulação do termo do ponto de vista do marketing para dar a impressão de que o produto é cerâmica”.

Testes realizados por organizações como a Lead Safe Mama detetaram níveis elevados de titânio, chumbo, mercúrio e antimónio em produtos de marcas populares. O dióxido de titânio, por exemplo, está proibido na União Europeia em alimentos devido ao seu potencial cancerígeno e a ligações com neurotoxicidade e inflamação intestinal, mas continua a ser permitido em utensílios de cozinha.

Embora as empresas garantam que os níveis utilizados não apresentam riscos, a verdade é que não existe investigação suficiente sobre o efeito cumulativo da migração de diversos compostos tóxicos para os alimentos. “É absolutamente ridículo que os consumidores tenham de vasculhar testes e patentes para descobrir o que estão a comprar”, comentou Laurie Valeriano, diretora da organização Toxic Free Future.

Além disso, o material das chamadas quasi-cerâmicas poderá degradar-se a temperaturas superiores a 260 ºC, aumentando o risco de libertação de substâncias químicas. Muitos consumidores também se queixam de que o revestimento antiaderente perde eficácia ao fim de poucos meses de uso, ao contrário da verdadeira cerâmica, que resiste a temperaturas muito mais elevadas.

Apesar das crescentes preocupações, não existem normas federais nos EUA que limitem a quantidade de chumbo em panelas de cerâmica. O FDA (Food and Drug Administration) considera que só há problema se o chumbo migrar para os alimentos no momento da compra, mas não existe qualquer sistema de controlo para verificar se o material continua seguro após uso prolongado ou danos.

O estado de Washington, contudo, anunciou medidas pioneiras: a partir de 2026, o limite será de 90 partes por milhão (ppm) de chumbo em utensílios de cozinha, baixando para 10 ppm em 2028. A Lead Safe Mama encontrou níveis de chumbo até 70 ppm na Always Pan.

Os especialistas sublinham a necessidade de maior fiscalização e transparência no setor. Tom Neltner, do grupo Unleaded Kids, lamenta que o FDA esteja demasiado sobrecarregado para atuar: “Há muitas prioridades e falta de recursos, por isso estas questões do chumbo e de outros metais em utensílios de cozinha acabam por não ser devidamente escrutinadas”.

Enquanto isso, marcas como a Caraway insistem que os seus produtos são seguros e que estão empenhadas em contribuir para um “lar mais limpo”, apesar de admitirem que ainda há “muito por fazer”.

Face ao vazio regulatório e às estratégias de marketing muitas vezes enganadoras, cabe agora às autoridades e à sociedade civil garantir que as promessas de segurança e sustentabilidade não ficam apenas pelas palavras.

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