Ovos em troca de manter a Gronelândia? Trump pede ajuda à Dinamarca para resolver problema de escassez nas prateleiras

A situação surge num contexto delicado, com as relações entre Washington e Copenhaga já tensas após a administração de Donald Trump ter ameaçado anexar o território dinamarquês da Gronelândia e ter imposto tarifas sobre produtos europeus.

Pedro Gonçalves
Março 14, 2025
18:29

Os Estados Unidos pediram à Dinamarca que aumente as exportações de ovos para ajudar a mitigar a escassez que tem assolado o país devido a surtos de gripe aviária. A situação surge num contexto delicado, com as relações entre Washington e Copenhaga já tensas após a administração de Donald Trump ter ameaçado anexar o território dinamarquês da Gronelândia e ter imposto tarifas sobre produtos europeus.

A gripe aviária levou ao abate de mais de 30 milhões de galinhas poedeiras nos EUA desde o início do ano, provocando uma subida acentuada dos preços. Entre janeiro e fevereiro, o custo médio de uma dúzia de ovos quase duplicou, ultrapassando os oito dólares (cerca de 6,18 euros).

Apesar de Trump ter prometido, durante a campanha eleitoral, que reduziria o preço dos ovos já no primeiro dia do seu segundo mandato, a escassez persiste. No seu mais recente discurso ao Congresso, o presidente culpou a administração anterior pelo que classificou como “preços fora de controlo”.

EUA procuram ovos na Europa, mas enfrentam obstáculos
A organização setorial Danish Eggs confirmou que foi contactada pelos EUA para aumentar as exportações e ajudar a reforçar a oferta no mercado norte-americano. O gestor do setor, Jørgen Nyberg Larsen, revelou ao AgriWatch que a Dinamarca não foi o único país europeu abordado.

“Os EUA perguntaram-nos quanto poderíamos fornecer. Fizeram o mesmo com os meus colegas nos Países Baixos, na Suécia e na Finlândia”, afirmou Larsen.

No entanto, existem desafios logísticos e regulatórios que podem dificultar a operação. “Nos EUA, os ovos para consumo e para produtos derivados devem ser lavados, mas essa prática não é permitida na União Europeia”, explicou. “Perguntei se essa exigência ainda se aplicava e eles disseram que iriam esclarecer isso em Washington. Depois voltaram a perguntar quanto poderíamos fornecer, e eu já respondi.”

A escassez de ovos levou a administração Trump a destinar mil milhões de dólares para reforçar a indústria avícola, incluindo 500 milhões para melhorar as medidas de biossegurança e travar a propagação da gripe aviária. Além disso, o Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação ao mercado dos ovos para apurar se alguns produtores estariam a inflacionar artificialmente os preços, aproveitando-se da crise sanitária.

Pedido de ajuda dinamarquesa coincide com novas tensões comerciais e disputa sobre a Gronelândia
O pedido de ovos surge num momento particularmente sensível para as relações entre os EUA e a Dinamarca. Trump tem vindo a intensificar a guerra comercial com a Europa, ameaçando impor um aumento de 200% nos impostos sobre bebidas alcoólicas europeias, incluindo champanhe.

Na sua rede social Truth Social, Trump justificou a medida alegando que “o mundo inteiro está a ROUBAR os EUA!!!”. A ameaça surge como retaliação à decisão da União Europeia de aumentar as tarifas sobre 28 mil milhões de dólares em importações norte-americanas, abrangendo produtos como uísque do Kentucky e motociclos.

As tarifas impostas por Trump – incluindo uma taxa global de 25% sobre importações de aço e alumínio – já geraram boicotes internacionais a produtos dos EUA, e a Dinamarca não é exceção. Um grupo dinamarquês no Facebook que apela ao boicote de bens norte-americanos já ultrapassou os 80 mil membros, enquanto a cadeia de supermercados Salling Group adotou um sistema de etiquetagem para destacar produtos europeus com uma estrela preta.

Para além das disputas comerciais, Trump reacendeu outra controvérsia ao insistir na sua intenção de anexar a Gronelândia. Durante uma reunião na Casa Branca ao lado do secretário-geral da NATO, Mark Rutte, o presidente norte-americano voltou a afirmar que acredita que os EUA irão eventualmente adquirir o território dinamarquês.

“Acho que vai acontecer”, declarou Trump. “Precisamos disso para a segurança internacional, não apenas para a segurança nacional.”

Tanto o governo dinamarquês como o executivo da Gronelândia têm reiterado que o território não está à venda. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, rejeitou categoricamente a possibilidade, sublinhando que “ao abrigo do tratado da NATO, da Carta das Nações Unidas ou do direito internacional, a Gronelândia não está aberta a anexação”.

A insistência de Trump na aquisição da ilha, combinada com a guerra comercial e o pedido de ajuda para a crise dos ovos, coloca a Dinamarca numa posição delicada, evidenciando as contradições da política externa da administração norte-americana.

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