O mundo está a viver a década mais quente da história, segundo dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM). E o corpo humano reage a este calor conforme foi programado pela evolução. As nossas capacidades cognitivas e motoras entram em modo ‘zombie’ para sobreviver ao calor, uma mudança que se processa no cérebro, segundo apontaram os cientistas.
José Ángel Morales, neurobiólogo da Universidade Complutense de Madrid, descreveu ao jornal espanhol ‘El Mundo’, a forma como o nosso cérebro funciona quando disparam os termómetros. “Durante as ondas de calor, os problemas para o cérebro e para o corpo em geral começam a partir dos 40 graus. A partir daí, o nosso cérebro começa a bloquear”, referiu.
A ‘culpa’ é dos neurónios de Purkinje, “especialmente sensíveis ao calor”, apontou o especialista. “Eles são ‘fritos’ devido às altas temperaturas. Quando está muito quente, as proteínas começam a decompor-se, a derreter. Os neurónios são especialmente sensíveis ao derreter das suas proteínas”, frisou.
“A membrana de cada célula é composta de proteínas. Então, o que acontece com o calor? É como quando temos manteiga no frigorífico. Se a tirarmos, começa a derreter e perde a forma. Acontece a mesma coisa com as proteínas, começam a desfigurar-se. Isso acontece em todas as células e no caso dos neurónios ainda mais. Especialmente os Purkinjes”, referiu.
Estes neurónios em particular estão localizados no cerebelo e são responsáveis pelas nossas funções motoras. Assim, se se sentir um pouco mais desajeitado ou lento na atmosfera sufocante do verão, pode culpar estas células específicas. “Os Purkinjes estão envolvidos no controlo do movimento e do equilíbrio. Por isso, um dos sintomas do golpe de calor é a desorientação e ficar um pouco mais lento ao mover-se”, explicou Morales.
“A insolação é o clímax final, se for o caso. Mas antes disso a nossa capacidade motora já está afetada”, garantiu o investigador.
Mas o calor não afeta somente a parte motora: surgem também maiores dificuldades de raciocínio. O hipotálamo é a ‘chave’ desta questão. “É uma região do cérebro que faz muitas coisas: regula o sono e controla a temperatura, entre outras funções. E o calor? Quando sobe o termómetro, o hipotálamo tem de se concentrar quase exclusivamente no controlo da temperatura interna. E não consegue prestar atenção a outras coisas. Por isso, num cenário de calor intenso, há aquela sensação de tédio e a pouca vontade de fazer alguma coisa”, referiu Morales.
“Se o hipotálamo está focado em baixar a temperatura, a consequência é que não presta tanta atenção à função de concentração. Daí a sensação de desorientação”, indicou o neurobiólogo. “Também pode ficar mais irritado, zangado e cansado: faz parte do ciclo de consequências devido ao aumento de temperaturas.”
E durante uma onda de calor?
Como seres homeotérmicos, o objetivo do corpo é manter-se estável em torno dos 37 graus. “Se a temperatura sobe muito, a questão começa a complicar-se”, sublinhou Pilar Cubo, da Sociedade Espanhola de Medicina Interna (SEMI). O hipotálamo funciona para libertar o calor do corpo para o ambiente: “Basicamente tem de cumprir duas funções: a primeira é aumentar a quantidade de sangue que chega à pele, a vasodilatação. A segunda é ativar a transpiração.”
Em caso de temperaturas recorde, o corpo de algumas pessoas pode não responder adequadamente. “É o caso de quem tem patologias prévias que afetam os sistemas que intervêm na termorregulação do corpo ou que está a tomar medicamentos que limitam a atuação desses mecanismos”, apontou.
“O golpe de calor é realmente perigoso. Principalmente pela desidratação. Além do aumento da temperatura, um dos sintomas é que a pele começa a ficar seca e avermelhada. Isso, junto com o aumento da frequência cardíaca e da respiração, são sinais de que algo está a começar a dar errado”, sustentou Morales.
E quando bebemos algo gelado e se sente uma dor repentina e aguda acima dos olhos. Obra do hipotálamo: no verão a mensagem é que está muito calor lá fora, o que ativa os mecanismos de defesa. Ao beber algo gelado, o cérebro recebe uma mensagem contraditória. “O nervo trigémeo, que passa pela parte medial do rosto e da testa, sinaliza que há algo errado. E como o faz? Com dor.” Esse esgar não é prejudicial, apenas um revés temporário. Como a sonolência que acompanha cada onda de calor.
A melhor forma de combater é uma boa noite de sono. “É muito importante fazê-lo porque à noite é quando o corpo aproveita para regular todas as suas funções e o cérebro aproveita para fazer o que chamo de ‘tirar o lixo’ quando estamos no fundo fase do sono”, frisou Morales.
Então, porque dormimos pior com o calor? “O hipotálamo, com a glândula pineal, é quem produz melatonina para regular o estado de vigília. A informação luminosa que recebe dos olhos, o hipotálamo regula quando dormimos e quando não dormimos. Mas com altas temperaturas ele fica bloqueado, não sabe o que está a acontecer e não é capaz de regular a função do sono.”














