Na última década, milhares de crianças em Inglaterra foram acusadas de bruxaria: de acordo com o jornal ‘The Guardian’, desde 2015 os especialistas encontraram 14 mil avaliações de assistência social relacionadas com acusações de bruxaria, sendo que desde março do ano passado houver 2.180 avaliações relacionadas com bruxaria.
As estatísticas, compiladas pelo ‘National FGM Centre’, surgiram no mesmo momento em que foi lançado o filme ‘Kindoki Witch Boy’, onde é contada a história de Mardoche Yembi, de 33 anos, que foi acusado de bruxaria quando era criança, crescendo no norte de Londres, e submetida a um exorcismo – a data do lançamento do filme marcou também o 25º aniversário da morte da morte de Victoria Climbié, uma menina de oito anos que foi torturada após terem sido feitas contra ela acusações de bruxaria.
Yembi espera que o novo filme incentive mais crianças que sofrem em ambientes fechados a manifestarem-se. “Se uma história como ‘Kindoki Witch Boy’ tivesse sido publicada quando eu era criança e estava a passar por essas experiências, ter-me-ia sentido menos sozinho. Quero que este filme transforme algo que era mau em algo bom, para ajudar outras crianças que passam pela mesma coisa. Espero que as crianças que estão a ser acusadas vejam que há ajuda lá fora e que podem sobreviver a isso”, relatou.
‘Kindoki’ é uma das várias palavras usadas para descrever o tipo de bruxaria da qual Yembi e Victoria foram acusadas, juntamente com termos como djin, juju e vodu.
Victoria, que morreu a 25 de fevereiro de 2000, foi trazida para o Reino Unido pela sua tia-avó Marie-Thérèse Kouao: Victoria foi morta, após sofrer abuso prolongado e extremo, por Kouao e pelo seu parceiro Carl John Manning.
O casal garantiu que ela estava possuída por espíritos malignos e que foi exorcizada por um pastor – foi também forçada a dormir em sacos do lixo numa banheira gelada. Aquando da sua morte, foram encontrados no seu corpo queimado e desnutrido 128 ferimentos separados, num dos casos de abuso infantil mais horríveis que os médicos já viram.
A jovem entrou em contacto com vários serviços de saúde e assistência social nos meses anteriores aos do seu assassinato: Manning e Kouao foram presos pelo seu assassinato em 2001, sendo que a sua morte levou a uma reformulação dos serviços de proteção às crianças.
Yembi e Victoria nasceram com apenas algumas semanas de diferença e moravam a alguns quilómetros de distância uma da outra no norte de Londres. Yembi foi enviado para o Reino Unido aos 8 anos pelo seu pai a partir da República Democrática do Congo, depois da morte da sua mãe, para ser cuidado por familiares.
Como muitas outras crianças que enfrentaram acusações de bruxaria, Yembi foi usado como bode expiatório por causar infortúnios financeiros e de saúde na vida dos seus parentes. Os serviços sociais ficaram preocupados depois de a sua família ter dito que pretendia mandá-lo de volta para a República Democrática do Congo para um exorcismo – ao contrário de Victoria, não sofreu abuso físico, mas os serviços sociais colocaram-no com uma mãe adotiva que o apoiou durante uma década – atulamente, Yembi trabalhar para apoiar jovens que saem do sistema.














