O maior porto europeu, em Roterdão, está a preparar-se para um eventual conflito com a Rússia, reservando espaços para o transporte de suprimentos militares e coordenando operações logísticas com outros portos estratégicos, como Antuérpia.
A informação foi avançada pelo Financial Times e confirma a crescente mobilização de infraestruturas civis na Europa para cenários de guerra.
O diretor executivo da Autoridade Portuária de Roterdão, Boudewijn Siemons, explicou que está em curso uma cooperação estreita entre portos europeus para assegurar a capacidade logística necessária ao transporte de equipamento militar proveniente de países como o Reino Unido, Estados Unidos e Canadá. “Nem todos os terminais estão preparados para este tipo de carga. Se houver necessidade de grandes volumes, recorremos a Antuérpia ou a outros portos. Já não nos vemos apenas como concorrentes, mas como parceiros onde é preciso”, afirmou.
As medidas surgem num contexto de crescente tensão internacional, com a guerra na Ucrânia a entrar no quarto ano e os países da NATO a comprometerem-se com o aumento dos gastos em defesa até 5% do PIB – um valor inédito em tempos de paz. Bruxelas, por seu lado, prepara um ambicioso plano de rearmamento europeu no valor de 800 mil milhões de euros, numa tentativa de reforçar a autossuficiência da Europa em matéria de defesa.
O porto de Roterdão, que movimenta anualmente cerca de 436 milhões de toneladas e recebe mais de 28 mil navios por mar, deverá acolher quatro a cinco navios militares por ano, durante várias semanas, conforme solicitado pelo Ministério da Defesa dos Países Baixos. O terminal de contentores do porto é, atualmente, o único local onde se pode transferir munições de forma segura entre navios. Estão ainda previstos exercícios militares anfíbios ao longo do ano.
Embora o porto já tenha recebido equipamento militar em momentos pontuais – com destaque para a Guerra do Golfo, em 2003 – não existia até agora um cais dedicado a operações de defesa. Antuérpia, por outro lado, tem servido regularmente as forças americanas estacionadas na Europa.
A crescente militarização do porto surge também num momento de retração comercial. Desde a imposição das sanções da UE à Rússia, Roterdão perdeu cerca de 8% do seu volume de comércio, sobretudo devido à redução nas importações de petróleo.
Para além da logística militar, os portos europeus começam a ser considerados peças-chave na resiliência estratégica da União Europeia. Siemons defendeu que a Europa deve estender o conceito de reservas estratégicas, já aplicado ao petróleo, a outros recursos críticos como cobre, lítio, grafite, medicamentos e bens alimentares.














