Henrique Gouveia e Melo continua a liderar as intenções de voto nas presidenciais, mas o caminho até Belém está longe de ser seguro. Segundo uma análise da CNN Portugal, o ex-coordenador do plano de vacinação enfrenta três fragilidades estruturais que já começam a fazer mossa — a associação à Maçonaria, a falta de discurso político consistente e o impacto do seu posicionamento nas últimas legislativas. A estes, junta-se agora um quarto elemento que pode reconfigurar totalmente a corrida presidencial: uma eventual candidatura de Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, que está a ponderar seriamente avançar.
A mais recente sondagem da Aximage para a TVI, CNN Portugal e Nascer do Sol coloca Gouveia e Melo como favorito num eventual segundo turno frente a Luís Marques Mendes. O professor de Ciência Política José Filipe Pinto confirma essa tendência, mas alerta para a possibilidade de um sismo político: “A grande alteração poderá ser Rui Moreira, que passa a ter uma clara hipótese de também chegar à segunda volta. Se o fizer, consegue captar votos à direita, ao centro e até na esquerda radical”, afirmou à CNN Portugal.
A entrada de Moreira pode desequilibrar o jogo para vários candidatos. José Filipe Pinto considera que Marques Mendes será o mais prejudicado, mas nem Gouveia e Melo escaparia ileso. Outros nomes em ascensão, como João Cotrim de Figueiredo (Iniciativa Liberal), também podem ver as suas bases eleitorais fragmentadas. Quanto ao Chega, que continua sem candidato presidencial anunciado, o analista descarta André Ventura da corrida, por estar “perfilado como futuro primeiro-ministro”. Ainda assim, qualquer nome com apoio do partido “poderá alterar o equilíbrio”, mesmo sem a força mobilizadora de Ventura.
Apesar da vantagem nas sondagens, o prestígio de Gouveia e Melo está a sofrer erosão. A associação à Maçonaria é o primeiro fator apontado por José Filipe Pinto como prejudicial junto de um eleitorado que “valoriza a transparência” e rejeita “clubes de elitistas”. Mesmo não sendo membro, o almirante ficou conotado com a estrutura. O segundo obstáculo é o discurso, que o professor universitário considera pouco mobilizador e artificial: “Passa a imagem de não ser o autor das suas palavras. Quase parece que está a aprender a ser político.”
A terceira fragilidade está relacionada com o calendário político: depois de meses a dizer que não queria interferir nas legislativas, Gouveia e Melo confirmou a sua candidatura apenas quatro dias antes da votação. “Entrou com uma expectativa enorme porque geria bem os silêncios. Mas não conseguiu manter essa expectativa”, diz Paula do Espírito Santo, professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Outro momento que gerou críticas foi a ausência nas comemorações oficiais do 10 de Junho, em Lagos, optando por participar num evento paralelo com antigos combatentes, onde acabou insultado e acusado de traição por alguns presentes.
A falta de densidade política nas intervenções é também sublinhada por Paula do Espírito Santo: “Quando marca a agenda, fá-lo com pouca substância”, apontando como exemplo a polémica em torno da lei da imigração. Segundo a professora, os candidatos oriundos da política, como Marques Mendes ou António José Seguro, são mais eficazes: “Têm convicção nos argumentos, com emoção e paixão política. As pessoas não ficam indiferentes a isso.”
É precisamente António José Seguro quem começa a emergir como uma alternativa no campo da esquerda. Apesar de ainda não ter apoio formal do Partido Socialista, a sua candidatura vai ganhando notoriedade. José Filipe Pinto considera que existe uma “simpatia no ar” por Seguro, lembrando a forma como foi afastado da liderança do PS por António Costa. A indefinição no Largo do Rato faz lembrar fantasmas de eleições passadas, em que o PS dividiu o apoio entre dois nomes — como aconteceu com Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém — e acabou derrotado. “A liderança não pode correr o risco de apoiar Seguro e depois surgir uma candidatura rival dentro do partido”, alerta Paula do Espírito Santo.
Com quatro obstáculos no horizonte — a Maçonaria, um discurso pouco consistente, a gestão política das legislativas e a possível entrada de Rui Moreira —, o almirante que ganhou fama na pandemia vê agora a sua “auréola” a perder brilho. E como lembra José Filipe Pinto, as pessoas já começaram a perceber que o plano de vacinação não foi traçado por ele: “Implementou-o, mas não o desenhou. Deu-lhe um toque de autoritarismo que agora o penaliza.” A sua capacidade de liderança pode já não ser suficiente para mobilizar um eleitorado cada vez mais exigente com quem se apresenta como futuro Presidente da República.





