A Itália está a considerar classificar como secretos os voos de Estado, depois de o avião que transportava a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ter sofrido uma alegada interferência de satélite atribuída à Rússia. A informação foi avançada por fontes do Ministério da Defesa italiano ao jornal The Guardian.
Von der Leyen, uma das mais duras críticas do presidente russo, Vladimir Putin, e da guerra da Rússia na Ucrânia, viajava no domingo para a Bulgária quando o avião fretado em que seguia perdeu o sinal de navegação por satélite. O incidente terá atrasado a chegada a Plovdiv e obrigou a aeronave a permanecer em voo circular sobre o aeroporto durante cerca de uma hora.
Após este episódio, vários Estados-membros da União Europeia estão a discutir formas de reforçar a segurança dos voos que transportam chefes de governo e altos responsáveis, numa altura em que aumentam os casos de bloqueio e manipulação de sinais GPS. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022, a frequência destas práticas de guerra eletrónica cresceu significativamente, com um agravamento notório no último ano.
Roma quer limitar informação pública sobre deslocações oficiais
Fontes da Defesa italiana confirmaram que Roma está a avaliar planos para reduzir a divulgação de informação sobre voos oficiais, incluindo a possibilidade de os retirar de plataformas de rastreamento abertas ao público. O objetivo passa por “minimizar a informação publicada no site do gabinete do primeiro-ministro” e impedir que páginas especializadas tornem os trajetos visíveis.
O ministro da Defesa, Guido Crosetto, já tinha avançado esta ideia há alguns meses, quando começaram a ser reportados mais casos de interferência nos sistemas de navegação em zonas próximas da Rússia.
Desde 2011, um decreto obriga a que os movimentos dos ministros italianos, incluindo viagens aéreas, sejam publicados no site do governo. Apesar de continuar a ser necessário pedir autorizações diplomáticas para sobrevoar o espaço aéreo de outros países, fontes ouvidas pelo Guardian admitiram que “a Itália, respeitando esse protocolo, poderá em breve decidir não tornar públicos esses voos”.
Em fevereiro, o avião do primeiro-ministro italiano foi retirado da plataforma Flightradar, uma das aplicações mais populares de rastreamento em tempo real, mas continua visível em serviços equivalentes. Por razões de segurança, as autoridades estudam agora a hipótese de “blindar os voos que transportam o primeiro-ministro e ministros do governo, impedindo a sua visualização em todas as plataformas”, indicaram as mesmas fontes.
Incidentes anteriores e resposta internacional
Nos últimos meses, multiplicaram-se os relatos de interferências semelhantes. Em agosto, a autoridade de comunicações da Letónia identificou pelo menos três zonas de bloqueio de sinal junto à fronteira com a Rússia. Em abril de 2024, uma companhia aérea finlandesa suspendeu temporariamente os voos para a cidade estoniana de Tartu após casos de jamming, e em março desse ano um avião que transportava o ministro da Defesa britânico também sofreu interferências ao sobrevoar áreas próximas de território russo.
A agência Associated Press mapeou quase 80 incidentes de perturbação de GPS em vários pontos da Europa, numa campanha atribuída a Moscovo. O chefe do serviço secreto britânico chegou a classificar estas ações como “extraordinariamente imprudentes”.
O Kremlin, no entanto, negou qualquer responsabilidade no incidente com o avião de von der Leyen. “A vossa informação está incorreta”, afirmou na segunda-feira o porta-voz Dmitry Peskov.
Por seu lado, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, declarou esta terça-feira que encara com “grande seriedade” os episódios de jamming de sinais de GPS. Garantiu ainda que a Aliança Atlântica está a trabalhar “dia e noite” para impedir novas ocorrências e assegurar que “não o voltarão a fazer”.














