Mais de 3.000 reservistas israelitas anunciaram que não vão responder à convocatória do governo de Benjamin Netanyahu para participar na ocupação da Cidade de Gaza, operação prevista para arrancar esta semana e que já é alvo de fortes críticas internas e internacionais por implicar a expulsão permanente de milhares de palestinianos.
O executivo tinha planeado mobilizar 60 mil reservistas, que deveriam apresentar-se nas bases militares na terça-feira, numa primeira fase do novo avanço terrestre. Contudo, segundo fontes das Forças de Defesa de Israel (IDF) citadas pelo jornal Haaretz, o número real de comparecimentos será bastante inferior, num novo capítulo da crise de recusas e insubmissões que se arrasta desde o início da guerra.
Grande parte da rejeição deve-se à perceção de que a ofensiva ordenada por Netanyahu tem sobretudo como objetivo garantir a sua sobrevivência política. Muitos destes reservistas acumulam já “centenas de dias” de serviço desde outubro de 2023 e agora enfrentam a obrigação de prolongar missões por mais três meses em Gaza, na Cisjordânia e junto à fronteira com o Líbano. “Somos mais de 3.000 reservistas que já serviram durante a guerra e que agora não vamos atender à chamada”, declarou Max Kresch, sargento das IDF e membro da organização Soldiers for the Hostages, numa conferência de imprensa.
“Recusamo-nos a fazer parte da guerra ilegal de Netanyahu e acreditamos que é um dever patriótico exigir responsabilidades aos nossos líderes”, acrescentou. Kresch recordou ainda que foram os próprios reservistas que “responderam a 7 de outubro para proteger a população”, mas que agora se negam a “continuar a servir um primeiro-ministro que usa a guerra para se manter no poder”. E deixou uma acusação dura: “Continuar esta guerra é uma vergonha para Israel. A operação põe em risco os reféns, perpetua o assassinato e a fome da população de Gaza. Para o governo israelita, a vida humana não tem valor — nem mesmo a dos israelitas que dizem defender. Já chega.”
As críticas não se limitam às bases. Oficiais das IDF admitiram que a fratura entre a liderança militar e o governo começa a refletir-se dentro do próprio Exército. Foram dadas instruções aos comandantes para manter conversas com os soldados e permitir que expressem dúvidas e críticas, mas muitos militares sentem que isso não tem efeito prático. “Falamos, dizemos o que pensamos, mas não há respostas”, relatou ao Haaretz um reservista convocado para a base de Tze’elim, no sul de Israel, sob anonimato. “Nunca senti um peso tão grande em missões anteriores. Mesmo os comandantes sabem que estamos a entrar numa guerra que nem as próprias IDF desejam”, afirmou.
Neste contexto, é provável que o Exército não revele os números exatos da ausência de reservistas para evitar um “efeito dominó”. Os dados disponíveis são contraditórios. O ministro da Defesa estima que a taxa de presença caiu para 80%, face aos 120% registados logo após os ataques de 7 de outubro do Hamas. Já o grupo mediático Kan aponta para 60%, enquanto outras fontes sugerem apenas 50% ou menos. Esta quebra tem sido usada por setores da direita israelita para ligar as manifestações contra a reforma judicial, no verão de 2023, ao enfraquecimento das forças armadas e, indiretamente, ao êxito inicial do ataque do Hamas.
A crise de recusas junta-se a outro problema grave: o aumento dos suicídios dentro do Exército. Desde outubro, pelo menos 43 soldados tiraram a própria vida, segundo números oficiais — muito acima dos 14 casos registados em 2022 e dos 11 em 2021. O Ministério da Segurança Interna acrescenta que cerca de 9.000 militares sofrem de perturbações psicológicas desde o início da guerra. A questão é tabu em Israel, sobretudo dentro das IDF, consideradas um dos pilares da sociedade, onde a vulnerabilidade é vista como sinal de fraqueza.
Apesar do clima de contestação, Netanyahu ordenou no início de agosto o encurtamento dos prazos de preparação da ofensiva sobre Gaza, onde se encontram cerca de um milhão de palestinianos deslocados. Após uma reunião de dez horas, o Gabinete de Segurança deu luz verde ao plano estratégico do primeiro-ministro, conhecido como os “cinco princípios”, que inclui o controlo permanente da segurança por Israel e a formação de um governo civil alternativo, sem o Hamas nem a Autoridade Palestiniana.
A cúpula militar manifestou-se várias vezes contra esta estratégia. Aviv Zamir, chefe das IDF, alertou antes da votação que a ocupação de Gaza poderia transformar-se num “buraco negro” para Israel, pondo em risco tanto a vida dos reféns como a dos soldados. Analistas independentes avisam, além disso, que a operação poderá ter efeitos devastadores sobre a população civil palestiniana, sujeita a novas deslocações e a uma possível expulsão em massa do enclave.














