Israel está a aprofundar a guerra com o Hamas: cinco questões sobre o plano imprudente de Netanyahu de controlar a Faixa de Gaza

Esta nova fase da guerra segue um padrão familiar de estratégias mal elaboradas por parte de Netanyahu, sem raciocínio suficiente ou planeamento futuro aparente

Francisco Laranjeira
Agosto 16, 2025
11:30

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, está a avançar com o seu plano de assumir o controlo total de Gaza, expandindo os seus esforços de guerra por entre uma crise de fome cada vez mais profunda no enclave e intensificando a condenação internacional.

No plano apresentado, o Governo israelita anunciou ainda que só terminaria a guerra quando fossem cumpridos cinco “princípios”: entre eles, a desmilitarização da Faixa de Gaza, a libertação dos restantes reféns detidos pelo Hamas e o desarmamento do grupo.

Esta nova fase da guerra segue um padrão familiar de estratégias mal elaboradas por parte de Netanyahu, sem raciocínio suficiente ou planeamento futuro aparente. Dado o seu novo objetivo declarado de assumir o controlo total da Cidade de Gaza, o fim da guerra não parece provável ou iminente, destacou Ian Parmete, investigador académico de Estudos do Médio Oriente, da Universidade Nacional Australiana, num artigo no site ‘The Conversation’.

Eis cinco perguntas sobre a validade do plano do primeiro-ministro israelita.

É necessário ou sensato militarmente?

Significativamente, o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), o tenente-general Eyal Zamir, opôs-se à decisão de expandir as operações em Gaza, alertando que qualquer plano de ocupação da Faixa de Gaza “arrastaria Israel para um buraco negro”. O responsável militar indicou que a expansão da campanha militar não era necessária, uma vez que as IDF (Forças de Defesa de Israel) “atingiram e até excederam os objetivos da operação” em Gaza.

O Hamas foi substancialmente degradado como força militar e a sua liderança sénior foi morta. Já não é uma força organizada em Gaza – está agora a adotar táticas de guerrilha, o que torna arriscada uma campanha alargada num ambiente urbano como a Cidade de Gaza. O Hamas poderá utilizar a sua vasta rede de túneis para organizar ataques surpresa contra soldados israelitas e instalar armadilhas em edifícios.

Assim, o plano de Netanyahu conduzirá inevitavelmente a mais baixas entre as Forças de Defesa de Israel (IDF): quase 900 militares israelitas foram mortos até agora na guerra. Além disso, assumir o controlo total da faixa levaria meses a ser concluído e resultaria em inúmeras mortes de civis palestinianos.

Zamir alertou também que isso poderia colocar em risco as vidas dos reféns israelitas ainda vivos, que se acredita serem cerca de 20. A libertação da maioria dos reféns israelitas ocorreu durante um cessar-fogo – não como resultado de uma ação militar. O Hamas assassinou seis reféns no final de 2024, quando as forças israelitas pareciam estar a aproximar-se. Porque não o faria novamente se estivesse encurralado?

Israel tem pessoal militar suficiente para tal operação?

Segundo o especialista, Israel tem um exército relativamente pequeno, totalizando cerca de 169 mil homens. O país conta com mais de 400 mil reservistas, que concluíram o serviço militar, para reforçar as IDF em caso de emergência. Mas retirar os reservistas dos seus empregos normais durante longos períodos tem efeitos adversos na economia e prejudicaria Israel a longo prazo.

O objetivo de Netanyahu de degradar o controlo do Hamas sobre Gaza segue uma estratégia básica de “limpar, manter e construir”. Primeiro, as iDF limpam uma área dos combatentes do Hamas, depois mantêm a área com efetivo militar suficiente para impedir o seu regresso e, por fim, criam um ambiente no qual o Hamas não pode funcionar, por exemplo, destruindo os seus túneis e incentivando o regresso da governação civil.

Para Ian Parmete, Israel não tem efetivos e reservistas das Forças de Defesa de Israel suficientes para implementar esta estratégia em toda a faixa. Também precisa de soldados na Cisjordânia, onde os confrontos entre colonos judeus e residentes palestinianos se têm tornado cada vez mais violentos nos últimos anos.

Benjamin Netanyahu afirmou não querer ocupar Gaza de forma permanente, mas os membros de extrema-direita do seu gabinete querem. Deixaram claro que pretendem o restabelecimento dos colonatos israelitas em Gaza e também a anexação da maior parte, senão da totalidade, da Cisjordânia. As mensagens confusas do Governo de Netanyahu tornam muito difícil saber qual é o seu plano a longo prazo para Gaza, se é que tem algum.

Que tipo de “força árabe” acabaria por chegar?

Numa entrevista esta semana, Netanyahu disse que prevê que o futuro controlo da segurança da Faixa de Gaza passaria eventualmente para “forças árabes”. Mas que estados árabes contribuiriam com militares para tal força?

Os Estados árabes há muito que defendem a posição de que não resolverão o problema palestiniano de Israel por si só, nem concordarão com qualquer resultado em Gaza ou na Cisjordânia a que os palestinianos se oponham. Em suma, embora se oponham ao Hamas, recusam-se a fazer o trabalho sujo de Israel em seu nome.

Um representante do Hamas, Osama Hamdan, também avisou esta semana que o seu grupo trataria qualquer força formada para governar Gaza como uma força de “ocupação” ligada a Israel. Qualquer agente que policiasse Gaza em nome de Israel teria um alvo nas suas costas.

Qual é o plano para a população civil de Gaza?

Em julho último, o ministro da Defesa, Israel Katz, anunciou um plano para obrigar toda a população de dois milhões de pessoas de Gaza a mudar-se para uma “cidade humanitária” na parte sul da Faixa de Gaza. O ex-primeiro-ministro Ehud Olmert comparou-a a um “campo de concentração”.

Pouco se tem dito sobre o plano nas últimas semanas, mas a sua implementação agravaria, sem dúvida, ainda mais a crise humanitária na Faixa de Gaza e atrairia ainda mais condenação internacional para Israel. Foi noticiado que o Governo de Telavive mantém negociações com países africanos, incluindo o Sudão do Sul, para receber palestinianos refugiados.

No início deste ano, o gabinete de segurança de Israel aprovou também um plano para facilitar a “transferência voluntária” de residentes de Gaza da Faixa de Gaza para países terceiros. Este plano foi também criticado como uma tentativa de limpeza étnica no enclave.

Netanyahu está disposto a aprofundar o isolamento de Israel?

O especialista em Médio Oriente, Amin Saikal, destacou o quanto a credibilidade internacional de Israel foi afetada desde o início da guerra — até mesmo entre os americanos. Os israelitas estão a tomar consciência de que viajar para fora do país pode envolver riscos. Dois israelitas foram recentemente detidos e interrogados na Bélgica depois de terem participado num festival de música e alegadamente terem agitado a bandeira da sua brigada militar. Um grupo de defesa dos direitos humanos acusou os dois de serem cúmplices de crimes de guerra em Gaza.

Além disso, a comunidade internacional reagiu imediatamente à decisão de Netanyahu de expandir a guerra. A Alemanha, num passo importante, anunciou que iria suspender todas as exportações de armas para Israel. O país é o segundo maior fornecedor de armas ao Estado judaico.

Netanyahu respondeu às críticas internacionais e às iniciativas dos aliados de Israel para reconhecer um Estado palestiniano acusando-os de incitar o antissemitismo e de recompensar o Hamas.

No entanto, o líder israelita parece estar a variar a sua estratégia para lidar com os acontecimentos à medida que estes ocorrem. Ele e outros membros do seu Governo acreditam provavelmente que podem continuar a suportar a tempestade internacional sobre as suas ações em Gaza até depois da guerra e, depois, trabalhar para reabilitar as relações. A questão é saber quando termina a guerra…

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