Israel decide hoje resposta a plano de cessar-fogo aceite pelo Hamas

Israel deverá comunicar esta sexta-feira a sua resposta ao plano de cessar-fogo para Gaza que foi aceite pelo Hamas, num momento em que aumenta a pressão internacional para pôr fim a uma guerra que já provocou mais de 62 mil mortos palestinianos.

Pedro Gonçalves
Agosto 22, 2025
7:15

Israel deverá comunicar esta sexta-feira a sua resposta ao plano de cessar-fogo para Gaza que foi aceite pelo Hamas, num momento em que aumenta a pressão internacional para pôr fim a uma guerra que já provocou mais de 62 mil mortos palestinianos.

A proposta em causa, mediada pelo Egito e pelo Catar, prevê uma trégua de 60 dias e a troca faseada de prisioneiros palestinianos por reféns israelitas ainda detidos em Gaza. De acordo com os detalhes divulgados, cerca de metade dos 20 reféns sobreviventes, bem como corpos de israelitas mortos, seriam libertados em troca de 150 prisioneiros palestinianos, alguns deles a cumprir penas de prisão perpétua.

Apesar do movimento do Hamas, que terá reduzido exigências no que respeita à zona de segurança exigida por Israel e ao número de libertações, o governo de Benjamin Netanyahu continua dividido. Um alto responsável israelita disse à AFP que “a posição não mudou” e que qualquer acordo deve incluir “a libertação de todos os reféns”.

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Catar afirmou na terça-feira que o plano aceite pelo Hamas era “quase idêntico” à proposta inicial do enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff. “Hamas deu uma resposta muito positiva, e era de facto quase idêntica ao que a parte israelita tinha anteriormente acordado”, acrescentou.

Também o Egito confirmou ter enviado o plano a Israel em conjunto com o Catar, sublinhando que “a bola está agora no campo israelita”. Fontes de segurança egípcias, citadas pela imprensa local, adiantaram que Cairo terá feito forte pressão sobre o Hamas para aceitar compromissos, incluindo a possibilidade de entregar armas a custódia egípcia por tempo indeterminado, como forma de responder às exigências de desmilitarização feitas por Israel.

O chefe do Mossad, David Barnea, esteve recentemente em Doha, alimentando especulações sobre negociações mais ativas do que o admitido oficialmente. Netanyahu deverá reunir o governo nos próximos dias para avaliar a proposta.

Enquanto prosseguem as manobras diplomáticas, Israel enfrenta críticas crescentes pela situação humanitária em Gaza. O porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Thameen al-Kheetan, declarou em Genebra que “nas últimas semanas as autoridades israelitas apenas permitiram a entrada de ajuda em quantidades muito abaixo do necessário para evitar uma fome generalizada”. Segundo o responsável, “o risco de fome em Gaza é resultado direto da política israelita de bloqueio da ajuda humanitária”.

Israel, através da sua agência militar Cogat, garante estar a fazer “consideráveis esforços” para distribuir ajuda no território, mas a maioria da comunidade internacional contesta essa versão.

Paralelamente, a pressão interna aumenta. Milhares de israelitas têm saído às ruas em protesto para exigir um acordo que permita o regresso dos reféns. Estão já marcadas novas manifestações para este fim de semana.

O dilema é particularmente delicado para Netanyahu, cuja coligação frágil depende de aliados da extrema-direita contrários a qualquer trégua. Analistas da imprensa israelita apontam que o primeiro-ministro tem alternado posições de forma abrupta, oscilando entre aceitar um acordo parcial e rejeitar qualquer trégua.

Amos Harel, analista do jornal Haaretz, escreveu que “como sempre, tudo é fluido e flexível: Netanyahu mudará os seus argumentos e explicações, e pode até encorajar discretamente a oposição interna, desde que consiga evitar assinar um acordo”. No entanto, se a pressão interna se intensificar ou se Donald Trump exigir diretamente, “o acordo acabará por ser assinado, apesar dos riscos políticos”.

Outro comentador, Ben-Dror Yemini, no diário Yedioth Ahronoth, alertou para as consequências de uma rejeição: “Se Israel disser não, cairá na armadilha preparada pelo Hamas. Uma incursão militar em Gaza após o movimento ter dito sim ao plano Witkoff e Israel ter recusado só agravará a avalanche de críticas internacionais.”

Além da questão militar, Netanyahu enfrenta ainda o risco de ver o seu governo cair e de ser forçado a eleições antecipadas. O primeiro-ministro, que responde em tribunal por acusações de corrupção, terá de retomar o julgamento no outono, o que aumenta a instabilidade política.

Para já, a decisão esperada para esta sexta-feira poderá determinar não só o futuro da guerra em Gaza, mas também o destino político de Netanyahu.

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